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Triunfo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Para outros significados, veja Triunfo (desambiguação).

Triunfo é a designação de uma grande família de jogos de cartas praticados em muitos países da Europa. Vários jogos desta família — como o Königrufen e o Zwanzigerrufen austríacos, ou o Triunfo Francês — são geralmente conhecidos apenas pelo nome genérico «Triunfo» pelos seus próprios jogadores. A forma original do jogo surgiu por volta de 1420–1425, no período do início do Renascimento, no norte de Itália, sendo por isso um dos jogos de cartas mais antigos ainda praticados no mundo.

Cartas de Triunfo na mão de uma jogadora

O elemento definidor destes jogos de vazas é a existência, além dos naipes habituais, de uma série de cartas de triunfo permanentes — classicamente 21 — normalmente numeradas com algarismos romanos ou arábicos. Estas cartas eram originalmente chamadas trionfi; foi a partir deste conceito e deste termo que se desenvolveu a própria noção de «trunfo» nos jogos de cartas em geral, mais tarde transposta para muitos outros jogos[1]. A par destas 21 cartas existia ainda uma carta especial e muito valiosa, o Louco (ou Bobo), regida por regras próprias, e que é por vezes erradamente vista como precursora do coringa (joker). Na maioria das variantes centro-europeias, porém, o Louco acabou por se tornar o vigésimo segundo e mais alto triunfo.

Etimologia

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Às cartas de triunfo chamou-se inicialmente, em italiano, trionfi («triunfos»)[2]. O termo «tarocco» (de que derivam o francês tarot, o alemão Tarock e o espanhol tarot/tarock) surge pela primeira vez num inventário da corte de Ferrara, em dezembro de 1505; nesse mesmo ano regista-se também a primeira ocorrência da forma francesa Tarau, em Avignon, pelo que alguns investigadores chegaram a especular que o termo italiano derivaria do francês, e não o inverso[2]. A primeira ocorrência em texto impresso é a de 1526, no Gioco della Primiera do poeta Francesco Berni; no final do século XVI, «tarocco» já tinha suplantado «trionfi» como designação corrente[3].

A origem última da palavra «tarocco»/«tarot» permanece incerta. Entre as hipóteses avançadas contam-se uma relação com o processo de decoração das cartas, ou com o nome do rio Taro, afluente do Pó[4]; em francês, foi ainda proposta uma ligação ao particípio «taroté», usado para descrever um motivo decorativo gravado sobre folha de ouro — hipótese hoje considerada pouco fundamentada, já que esse termo só está atestado a partir do século XVII e não tem equivalente em italiano[5].

Diversas etimologias de cunho esotérico foram também propostas a partir do final do século XVIII, no contexto da associação do Triunfo à adivinhação (ver secção sobre o uso divinatório, abaixo): Antoine Court de Gébelin fez derivar o nome do egípcio «Ta-Rosh» («via régia»); Samuel Liddell MacGregor Mathers propôs o egípcio «taru» («consultar»); e Gérard Encausse (Papus) associou-o a um tetragrama cabalístico[6]. Nenhuma destas propostas é aceite pela investigação histórica atual, que as considera antes um subproduto da moda egiptológica do período[6].

História

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Origens no norte de Itália (século XV)

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Os jogadores de Triunfo, afresco de um pátio do Palazzo Borromeo, em Milão, datável do final da década de 1440

Tal como os restantes baralhos ocidentais, também as cartas de Triunfo parecem dever muito ao contacto europeu com os jogos de cartas dos mamelucos egípcios, cujos naipes de cimitarras, bastões, copas e moedas deram origem aos naipes latinos ainda hoje usados em Itália, Espanha e Portugal[7]. O jogo com uma quinta série permanente de triunfos, porém, é uma inovação especificamente italiana, sem paralelo nos baralhos mamelucos.

O exemplo mais antigo conhecido de um baralho com uma série adicional de cartas triunfais foi encomendado pelo duque de Milão Filippo Maria Visconti entre cerca de 1414 e 1425: tratava-se da chamada Deificatione Sexdecim Heroum, concebida pelo seu secretário Marziano da Tortona e pintada por Michelino da Besozzo, composta por 60 cartas — 40 numerais, 4 reis e 16 cartas com divindades greco-romanas deificadas, que desempenhavam já a função dos futuros triunfos[8]. Este baralho, contudo, difere estruturalmente do Triunfo tal como se fixaria depois.

A referência documental mais antiga a um baralho «a trionfi» propriamente dito encontra-se numa carta de 1440 do notário Giusto Giusti, de Anghiari, que relata ter oferecido a Sigismondo Pandolfo Malatesta um «par de naipes a triunfos» mandado fazer em Florença[9]. Em 1442, os registos de contas da corte de Ferrara documentam o pagamento ao pintor Jacopo da Sagramoro pela decoração de quatro baralhos de triunfos destinados a Leonello d'Este, e ainda a aquisição, a preço bastante inferior, de baralhos mais simples para os seus irmãos — indício de que já então circulavam, a par dos exemplares de luxo pintados à mão, baralhos de fabrico mais económico[10]. A mais antiga representação pictórica do jogo é o afresco Il gioco dei tarocchi, num dos pátios do Palazzo Borromeo, em Milão, datável do final da década de 1440[11].

Um tratado de Marziano da Tortona, enviado em 1449 juntamente com um baralho de Jacopo Antonio Marcello a Isabel de Lorena, consorte de René de Anjou, descreve ainda outro conjunto de cartas de características semelhantes, o que atesta a coexistência, nestas décadas iniciais, de diferentes tentativas de fixar a estrutura do novo jogo[12].

Os baralhos Visconti-Sforza

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«O Mundo», do baralho Visconti di Modrone (Cary-Yale), um dos mais antigos exemplares de Triunfo conhecidos

Os mais antigos baralhos de Triunfo ainda hoje existentes são os chamados baralhos Visconti-Sforza, realizados na Lombardia para a família Visconti e geralmente atribuídos ao pintor de corte Bonifacio Bembo[13]. Sobrevivem três exemplares, incompletos, com fundos dourados ou prateados e trabalho de puncionagem: o mais antigo, dito Visconti di Modrone ou Cary-Yale (conservado na Universidade Yale), tem uma estrutura ligeiramente diferente da tradicional, com seis figuras de corte por naipe (três masculinas e três femininas) e alguns triunfos que não passaram à tradição posterior, como as três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade)[14]; o segundo, Brera-Brambilla, dos quais restam apenas dois triunfos (a Roda da Fortuna e o Imperador), é datado entre 1442 e 1445[14]; o terceiro e mais completo, Pierpont Morgan-Bergamo, foi realizado para Francesco Sforza e a sua esposa Bianca Maria Visconti, sobrevivendo dele dezanove triunfos, seis dos quais acrescentados mais tarde por outro pintor[14].

O baralho Sola Busca

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O baralho conhecido como Tarocco Sola Busca, hoje conservado na Pinacoteca de Brera, em Milão, é o mais antigo baralho completo de Triunfo (78 cartas) que chegou até aos dias de hoje[15]. Gravado a buril e depois iluminado a têmpera e ouro, é atribuído ao pintor Nicola di Maestro Antonio, de Ancona. Ao contrário da iconografia tradicional dos triunfos quattrocentescos, as 22 cartas de trunfo representam aqui guerreiros da Antiguidade clássica e figuras bíblicas — por exemplo, Catão de Útica, ao suicidar-se, representa a carta da Morte, e Alexandre Magno o rei de espadas[16].

Difusão em Itália

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Por volta de meados do século XV, a iconografia dos triunfos estava já relativamente estabilizada, e o jogo difundiu-se a partir de três centros principais: Ferrara, Milão e Bolonha — cada um deles com uma ordem de precedência dos triunfos ligeiramente diferente, já que estes ainda não eram numerados e os jogadores tinham de memorizar a hierarquia[17]. De Ferrara, o jogo propagou-se a Veneza e Trento, sem aí vingar; em Bolonha manteve-se popular até hoje, na forma do tarocchino bolonhês; e daí espalhou-se a Florença, onde surgiu a variante das Minchiate, jogada com um baralho alargado de 97 cartas. De Florença, o jogo propagou-se depois a Roma e, no século XVII, à Sicília[18]. Foi, no entanto, sobretudo a partir de Milão que o Triunfo se difundiu para o resto da Europa, transportado por soldados franceses e suíços em contacto com o jogo durante as campanhas militares em Itália no início do século XVI[19].

Chegada a França e primeiros séculos franceses

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«A Imperatriz», do baralho de Jean Dodal (Lyon, cerca de 1701), modelo de referência do Tarot de Marselha

Uma referência a cartas de triunfo em Avignon já em 1505 — o mesmo ano da primeira ocorrência do termo «tarocco» em Ferrara — levou alguns investigadores a questionar se não teria sido antes a ordem francesa dos triunfos a influenciar a região de Milão nessa época, embora esta hipótese tenha sido posteriormente abandonada pelo próprio autor que a propôs[20]. O mais antigo baralho francês de Triunfo hoje conservado, do cartista Catelin Geoffroy, foi fabricado em Lyon em 1557; dele restam 38 cartas, com naipes atípicos (papagaios, pavões e um leão substituem três dos quatro naipes latinos), mas reunindo aparentemente os 22 triunfos habituais[21]. O jogo era já suficientemente popular para ser mencionado por François Rabelais, que em 1534 inclui o «tarau» entre os jogos praticados por Gargantua[22].

Do século XVII sobrevivem três baralhos completos, todos parisienses: um «tarot de Paris» anónimo, o baralho de Jean Noblet e o de Jacques Viéville, ambos datáveis de cerca de 1650[23]. É também deste período a regra de jogo mais antiga a ser impressa, publicada pelo abade Michel (ou Michael) de Marolles em Nevers, em 1637, com base numa variante que aprendera da princesa Luísa Maria de Gonzaga-Nevers, jogada por três pessoas com um baralho de 66 cartas[24]. Em março de 2023 foi ainda leiloado, na casa Giquello & Associés (Hôtel Drouot, Paris), um raríssimo baralho de «Triunfo de Marselha» completo, fabricado por Philippe Vachier e datado de 1639 — o mais antigo exemplar conhecido deste tipo, vendido por 65 000 €, preço recorde para um baralho de cartas[25].

A popularidade do jogo em França parece ter diminuído na segunda metade do século XVII, sobrevivendo sobretudo na Provença e nas regiões fronteiriças com a Alemanha e a Suíça[26]. No século XVIII destacam-se os baralhos de Jean Dodal (Lyon, cerca de 1701) e, mais tarde, o de Nicolas Conver (Marselha, 1760), que viria a fixar-se como o modelo de referência do chamado «Tarot de Marselha»; a produção francesa desta época era, no entanto, sobretudo destinada à exportação para o Piemonte e para a Alemanha[27]. No século XIX, Jean-Baptiste Camoin, que adquirira a oficina de Nicolas Conver, modernizou a produção e publicou, por volta de 1880, uma versão com uma paleta de cores reduzida, adaptada aos novos processos de impressão industrial.

A adoção dos naipes franceses e o Triunfo de animais na Alemanha

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Em meados do século XVIII, os cartistas alemães abandonaram progressivamente os naipes italianos em favor dos naipes franceses (copas, ouros, paus e espadas à francesa) e substituíram os triunfos alegóricos clássicos por motivos animalísticos ou cenas pitorescas — os chamados Tiertarock («Triunfo de animais»), inovação geralmente atribuída ao cartista Göbl, de Munique[28]. No final do século XIX, este tipo de baralhos, com naipes franceses, viria a relançar a moda do jogo em França, dando origem ao moderno «Tarot Nouveau» (Grimaud), que gradualmente suplantou o antigo modelo de naipes italianos.

Apogeu europeu (1730–1830)

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O jogo atingiu o seu período de maior difusão entre 1730 e 1830, sendo então praticado em Itália, no leste de França, na Suíça, na Alemanha, na Bélgica, nos Países Baixos, na Dinamarca, na Áustria-Hungria, na Suécia e até na Rússia — com regras razoavelmente homogéneas apesar das pequenas diferenças locais, tanto nos baralhos de naipes italianos como nos de naipes franceses[29].

Estadistas húngaros a jogar tarokk em 1895, o jogo de cartas preferido da era pré-comunista[30]

Na Monarquia dos Habsburgos desenvolveram-se numerosas variantes regionais, muitas delas herdeiras do jogo do Hombre, que introduziu no Triunfo o elemento crucial da licitação (subasta) e do «chamar» um parceiro secreto por meio de uma carta[31]. Entre estas variantes contam-se o Königrufen, o Zwanzigerrufen, o Neunzehnerrufen e o Strohmandeln, ainda hoje jogadas na Áustria, Hungria, Eslovénia, Chéquia, Eslováquia, Polónia, Roménia e Ucrânia. O Triunfo tornou-se um verdadeiro elemento identitário da cultura austríaca, sendo referido nas obras de Marie von Ebner-Eschenbach, Robert Musil e Fritz von Herzmanovsky-Orlando — este último autor do termo Tarockei, mais tarde alterado por Friedrich Torberg, na controversa primeira edição póstuma do respetivo romance, para Tarockanien, em referência a Kakanien de Musil. Em 2024, o Königrufen foi reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade a título austríaco[32].

Na Alemanha, o Triunfo foi outrora muito difundido — como atestam referências nas obras de Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe —, mas hoje só sobrevive na variante Cego, jogada na região de Baden. Em França e na Áustria, o Triunfo continua bastante popular; no seu país de origem, a Itália, tornou-se raro, mantendo-se sobretudo no Piemonte, na Lombardia, na Ligúria e na Sardenha, além dos casos já mencionados de Bolonha e da Sicília. Na Suíça mantêm-se as variantes locais Troccas e Troggu.

Uso divinatório

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Em português, convém distinguir «Triunfo» — designação desta família de jogos de cartas e das próprias cartas usadas para jogar — do uso posterior do termo «Tarot», que se consagrou ao emprego esotérico e divinatório do baralho. O alemão mantém uma distinção análoga entre Tarock — o jogo de cartas e cada uma das suas cartas especiais — e Tarot — o baralho e a prática ligados à leitura de cartas e à adivinhação —, tal como registado pelos principais dicionários da língua alemã[33][34][35][36]; essa distinção não existe necessariamente, porém, no francês, no italiano ou no espanhol, línguas nas quais uma mesma palavra («tarot», «tarocchi») serve indiferentemente para o jogo e para a prática divinatória[nota 1]. A associação do baralho de Triunfo à adivinhação e ao ocultismo é bastante posterior à sua criação como jogo, remontando apenas ao final do século XVIII: nenhum documento dos primeiros séculos do jogo sugere um uso esotérico das cartas[37]. O ponto de partida costuma situar-se em 1781, quando Antoine Court de Gébelin, no oitavo volume da sua obra Le Monde primitif, defendeu que os triunfos codificavam secretamente os lendários «Livros de Thot» do antigo Egito[38]; pouco depois, Etteilla desenvolveu a mesma ideia numa série de livros (1783–1785) que descreviam ainda um método de leitura cartomântica[39]. Esta tradição foi mais tarde reelaborada por Éliphas Lévi (que a associou à Cabala judaica), por Papus e por Oswald Wirth, e teve, já no século XX, duas continuações particularmente influentes no mundo anglófono: o baralho de Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith (o «Rider-Waite»), publicado no Reino Unido, e o «Tarot de Thoth» de Aleister Crowley, pintado por Frieda Harris entre 1938 e 1943 mas só publicado em 1969. Já no âmbito da divulgação junto do grande público, Paul Marteau relançou em 1930 o modelo de Nicolas Conver sob o nome de «Ancien Tarot de Marseille», direcionado precisamente ao mercado da cartomancia.

Para leitura aprofundada sobre este tema — que corresponde ao sentido em que «Tarot» deve ser usado em português — ver o artigo Tarot.

As cartas

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Ficheiro:TarockTrull.jpg
O Trull: as três cartas mais importantes nas variantes centro-europeias — o Sküs, o Pagat (I) e o Mundo (XXI)

Um baralho completo de Triunfo tem 78 cartas: além dos quatro naipes habituais — que podem ser os naipes latinos (Copas, Ouros, Paus e Espadas), usados em Itália e em parte da Suíça, ou os naipes franceses, usados em Trieste e na generalidade dos restantes países —, existe uma série de 21 triunfos numerados, que funcionam como um naipe permanente de trunfos, e ainda a carta do Louco (ou «Excuse»/Sküs), sem número, que em algumas variantes serve apenas para dispensar o jogador de seguir o naipe ou de jogar triunfo, e noutras funciona como o trunfo mais alto do jogo. Em cada naipe existe ainda uma carta adicional de figura, o Cavalo (ou Cavaleiro), que se situa entre o Valete e a Dama.

É com este baralho completo de 78 cartas que se joga hoje sobretudo em França, e em menor escala na Dinamarca. Nos territórios que outrora pertenceram à Monarquia dos Habsburgos joga-se atualmente com baralhos reduzidos, de 54, 42 ou 40 cartas, obtidos retirando progressivamente as cartas baixas de cada naipe. Nestas variantes, a carta mais alta é habitualmente o Sküs (do francês Excuse), também chamado Gstieß. O Triunfo I (o «Pagat») e o Triunfo XXI (o «Mundo» ou Mond), juntamente com o Sküs, formam o chamado Trull (provavelmente do francês tous les trois, «todos os três»), grupo de três cartas com um papel especial na maioria das variantes de regras.

Triunfos do baralho «Industrie und Glück», típico da antiga Áustria-Hungria

As cartas de naipe dos baralhos de Triunfo centro-europeus têm figuras de estilo francês, e não os símbolos dos baralhos de Tarot usados para adivinhação, de imagética italiana ou espanhola. As cartas de triunfo trazem algarismos romanos e são normalmente decoradas com cenas de género — como as cartas ditas «Industrie und Glück» («Indústria e Fortuna»), usadas sobretudo na Áustria, Hungria, Chéquia, Eslováquia e Eslovénia, cujo nome deriva da inscrição «Industrie und Glück» representada na carta II sobre um rochedo com a águia imperial pousada.

«Tiertarock» (Triunfo de animais), Mannheim, cerca de 1778

No passado, a variedade decorativa destes baralhos era ainda maior, existindo baralhos com motivos de animais (Tiertarock), motivos históricos ou vedutas. Uma classificação sistemática das cartas, com respetivas árvores genealógicas, foi elaborada por Klaus Reisinger.

Devido à antiguidade do jogo, a ordenação das cartas segue uma hierarquia arcaica: nos naipes simples, o Rei é sempre a carta mais alta; nos naipes vermelhos ou latinos redondos, a ordem desce do Rei para a Dama, o Cavalo, o Valete e depois os números de 1 a 10.

Baralhos regionais italianos

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O Louco, do Triunfo Piemontês (modelo Vergnano)

Além do baralho geral acima descrito, várias regiões de Itália desenvolveram baralhos com estruturas próprias:

  • Triunfo piemontês — baseado no modelo de Marselha, mas com numeração dos triunfos em algarismos arábicos em vez de romanos; foi fixado por volta de 1830 pela família Vergnano, de Turim, e distingue-se do modelo francês por detalhes iconográficos próprios, como o Louco perseguindo uma borboleta ou o Diabo com focinho felino saído do abdómen[40].
  • Triunfo bolonhês (tarocchino bolognese) — baralho reduzido a 62 cartas (sem as numerais de 2 a 5), no qual quatro dos triunfos superiores têm o mesmo valor entre si (os chamados mori, antigamente papi); as regras tradicionais são hoje preservadas pela Accademia del Tarocchino Bolognese[41].
  • Triunfo siciliano (trunfu, tarocco siciliano) — baralho de 63 ou 64 cartas, no qual o triunfo XXI é substituído por uma carta chamada Miseria; ainda hoje se joga em apenas quatro localidades da Sicília: Barcellona Pozzo di Gotto, Calatafimi, Tortorici e Mineo[42].
  • Minchiate — baralho alargado, surgido em Florença entre o final do século XV e o início do XVI, com 97 cartas (40 triunfos, incluindo os quatro elementos, as três virtudes teologais e os doze signos do zodíaco); foi jogado sobretudo em Florença, Roma, Génova e na Sicília, extinguindo-se a meio do século XIX, provavelmente em favor do whist[43].

Note-se que os baralhos de Tarot com finalidade divinatória — como o Rider-Waite, o Tarot de Thoth ou os chamados Tarots Egípcios — não foram concebidos para jogar, ainda que possam em princípio ser usados para tal; a distinção terminológica proposta acima aplica-se igualmente a esta diferença de uso.

Regras gerais do jogo

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Todos os jogos da família do Triunfo são jogos de vazas com valores atribuídos às cartas. O objetivo é normalmente reunir a maioria dos pontos disponíveis nas vazas conquistadas. Os triunfos numerados vencem sempre as cartas de naipe simples, que por sua vez têm entre si o mesmo valor de força relativa. Na maioria dos jogos da família pratica-se hoje, antes das jogadas, uma fase de licitação (leilão).

As cartas com valor de pontuação mais elevado incluem habitualmente o Louco (Sküs/Excuse), o Triunfo I (Pagat) e o Triunfo XXI (Mundo/Mond), além de todas as cartas de figura[44]; as restantes cartas de triunfo (II a XX) e as cartas numerais valem, em geral, um ponto cada. Existem vários métodos tradicionais de contagem — por exemplo, agrupando as cartas ganhas em conjuntos de três — todos concebidos para simplificar o cálculo do total de pontos apurado nas vazas[45].

Classificação dos jogos de Triunfo

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A classificação mais divulgada em língua inglesa e alemã agrupa os jogos de Triunfo conforme o papel atribuído ao Louco e a complexidade das regras de licitação e declaração[1] (ver secção seguinte, «Grandes ramos e variantes»). O historiador Michael Dummett propôs ainda, em trabalhos posteriores, uma classificação alternativa em três grandes tradições geográficas[46]:

  • Tipo I — a tradição do centro e sul de Itália, considerada a mais antiga; inclui o trunfu siciliano, o ottocento bolonhês e o extinto Minchiate florentino.
  • Tipo II — a tradição do noroeste de Itália, da Suíça e de França; abrange o scarto e o mitigati piemonteses, o Troccas suíço, o tarok dinamarquês e o Triunfo Francês moderno.
  • Tipo III — a tradição centro-europeia, hoje a mais viva e alargada; inclui o Königrufen, o Cego, o paskievics, o taroky, o Strohmandeln, o Illustriertes Tarock, o Dreiertarock e o tarok esloveno.

Não se incluem nesta família jogos que, apesar de usarem baralhos de Triunfo, seguem dinâmicas totalmente alheias ao jogo tradicional (como o tarot africaine, adaptação francesa do jogo norte-americano Oh Hell), nem os jogos «ás-dez» que adaptaram o conceito de Triunfo a um baralho comum de 36 cartas sem naipe de trunfos próprio, como o Skat, o Frog ou o Tarock bávaro[47].

Grandes ramos e variantes

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Seguindo a classificação habitual, os jogos de Triunfo podem agrupar-se conforme o papel atribuído ao Louco e a complexidade das regras de licitação e declaração[1]:

O Louco como carta de dispensa (excuse)

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Jogos, jogados por exemplo nos Grisões e no Piemonte, em que o Louco nunca vence uma vaza, servindo apenas para dispensar o jogador da obrigação de seguir o naipe.

  • Sem comunicação entre jogadores — variantes hoje limitadas aos Grisões e ao Piemonte (por exemplo, o Scarto piemontês).
  • Com sinalização — jogos a quatro, em parceria fixa, em que os jogadores trocam informação através de códigos e gestos convencionados (como o Troccas grisão).
  • Com declarações (o chamado «Triunfo Clássico») — jogado tradicionalmente a três, com declarações de posse de certas cartas antes do jogo e bónus para quem vence a última vaza com um Rei ou o trunfo mais baixo; sobrevive hoje sobretudo no Piemonte (Mitigati) e na Dinamarca (Grosstarock).
  • Com licitação — desenvolvidos a partir do jogo do Hombre, deram origem ao Taroc l'Hombre germânico e ao seu descendente Droggn, do vale austríaco de Stubai (hoje extinto).
  • Com declarações e licitação — o ramo mais bem-sucedido é o moderno Triunfo Francês, jogado com o baralho completo de 78 cartas.
  • Jogos com mais de três triunfos de valor — exclusivos de Itália, como o Triunfo Bolonhês (baralho de 62 cartas) e o extinto Minchiate (baralho de 97 cartas).
Uma partida de Triunfo Francês

O Triunfo Francês, jogado normalmente a quatro jogadores, tem licitação sobre um talão de seis cartas e permite «chamar» um Rei para parceiro secreto; é ainda o único jogo da família com uma exigência de sobretrunfo obrigatório (overtrump). Desde 1977 é regulado pela Fédération Française de Tarot, e é hoje o segundo jogo de cartas mais popular em França, logo depois da Belote[48].

O Louco como triunfo mais alto

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Le Fou (o Louco), de um baralho Cartes de Suisses'

Nestes jogos — atestados desde o início do século XVIII em baralhos produzidos em Rouen e nos Países Baixos austríacos (as chamadas Cartes de Suisses') — o Louco passa a ser, em regra, o trunfo mais forte do jogo, o que expõe o Triunfo XXI (o «Mundo») ao risco de ser capturado pelo adversário, criando um novo objetivo estratégico de proteção ou captura desta carta[49].

  • Jogos com licitação, de origem suíça (século XVIII), como o Troggu, o Tappen/Dappen e o Tape de Friburgo, jogados por três a oito pessoas[50].
  • Jogos com licitação e declarações, entre os quais se destaca o baralho de 54 cartas de tipo Tapp Tarock, de que derivam variantes muito difundidas na antiga Monarquia Austro-Húngara e no Alto Reno, com o Louco sempre como trunfo mais alto; o baralho reduzido de 42 cartas deu ainda origem a jogos como o Zwanzigerrufen.

Jogos «ás-dez» derivados

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Em regiões alemãs surgiram jogos jogados com o baralho comum de 36 cartas de naipes germânicos, em que um naipe (habitualmente Copas) faz as vezes de trunfo — como o Bauerntarock ou o Tarock bávaro. Estes jogos incorporam elementos do Tapp Tarock, mas, por não terem naipe de triunfos próprio, não são considerados verdadeiros jogos de Triunfo.

Variantes por país (visão geral)

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Alemanha

  • Cego: 54 cartas, 3 ou 4 jogadores (Floresta Negra)
  • Dreierles: 54 cartas, 3 jogadores (Baden Central)
  • Grosstarock («Triunfo grande»): 78 cartas, 3 jogadores — forma original alemã do jogo

França

  • Triunfo francês: 78 cartas, 3 a 5 jogadores; regulado pela Fédération Française de Tarot desde 1977

Áustria

  • Königrufen («Chamar o Rei»): 54 cartas, 4 jogadores — Áustria, Eslovénia, Roménia, Ucrânia, Polónia; Património Cultural Imaterial da UNESCO desde 2024
  • Neunzehnerrufen («Chamar o dezanove»): 54 cartas, 4 jogadores — Áustria, Chéquia, Eslováquia, Polónia
  • Zwanzigerrufen («Chamar o vinte»): 40 cartas, 4 jogadores
  • Tapp-Tarock/Dreiertarock: 40, 42 ou 54 cartas, 3 jogadores
  • Strohmandeln: 54 cartas, 2 jogadores
  • Droggn: 66 cartas, 3 jogadores, vale de Stubai (extinto)

Suíça

  • Troggu: 62 cartas, 3 a 8 jogadores (cantão do Valais)
  • Troccas: 78 cartas, 3 a 6 jogadores (cantão dos Grisões)

Hungria

  • Tarokk húngaro: 40, 42 (o mais comum), 46 ou, raramente, 54 cartas, 4 jogadores — considerado por Michael Dummett o mais difícil dos jogos de Triunfo[51]

Itália

  • Triunfo bolonhês (tarocchino): 62 cartas, 4 jogadores em parceria fixa; regras preservadas pela Accademia del Tarocchino Bolognese
  • Minchiate: 97 cartas, extinto a meio do século XIX
  • Triunfo siciliano (trunfu / tarocco siciliano): 63 ou 64 cartas, 3 ou 4 jogadores, jogado hoje apenas em quatro localidades da Sicília
  • Triunfo piemontês (tarocco piemontese): 78 cartas, modelo fixado pela família Vergnano por volta de 1830

Apenas no nome (jogos que herdaram o nome mas não pertencem à mesma família)

  • Tarock bávaro: 36 cartas, 3 jogadores
  • Tarock de Württemberg: 36 cartas, 3 jogadores

Aspetos legais

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De acordo com o direito austríaco, o Triunfo — ao contrário, por exemplo, das várias variantes de póquer — não é considerado um jogo de azar, mas sim um jogo de destreza: segundo um parecer não vinculativo do Ministério Federal das Finanças austríaco, «jogos de destreza típicos são o Triunfo, o Bridge, o Schnapsen ou o Xadrez»[52].

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O jogo de Triunfo teve, ao longo da história, entusiastas ilustres: os compositores Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Strauss (filho) e Johannes Brahms, bem como Sigmund Freud, praticaram diversas variantes do jogo. No desenlace do primeiro volume da série Lymond Chronicles, de Dorothy Dunnett (The Game of Kings), a vida do protagonista depende do desfecho de uma longa partida de tarocco. O escritor italiano Italo Calvino inspirou-se nas imagens dos triunfos para o seu romance O Castelo dos Destinos Cruzados (1969), em que cada carta serve de estímulo narrativo às personagens.

A imaginária dos triunfos, sobretudo na sua vertente de arcanos maiores associada ao Tarot esotérico, tem ainda inspirado numerosas obras de ficção contemporânea — da série de romances As Crónicas de Âmbar, de Roger Zelazny (em que os triunfos permitem a teletransporte e comunicação psíquica entre personagens), a videojogos como a série Persona ou Balatro, e a banda desenhada, como a série JoJo's Bizarre Adventure, de Hirohiko Araki, cujos «Stands» (poderes das personagens) tomam os nomes e a iconografia dos arcanos maiores.

Ver também

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  1. Em francês, por exemplo, «tarot» designa tanto o jogo quanto a leitura divinatória (tarot divinatoire); o mesmo sucede em italiano com «tarocchi», usado tanto para o jogo quanto, em locuções como tarocchi occulti, para a prática esotérica.

Referências

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  1. 1 2 3 Dummett, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980. ISBN 0-7156-1014-7, p. 173.
  2. 1 2 Dummett, Michael; McLeod, John. A History of Games Played with the Tarot Pack. Lewiston, NY: Mellen Press, 2004, p. 17.
  3. Farley, Helen. A Cultural History of Tarot. Londres: I.B. Tauris, 2009. ISBN 978-1-84885-053-8, p. 29.
  4. Farley, Helen. A Cultural History of Tarot. Londres: I.B. Tauris, 2009, pp. 29–30.
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Bibliografia

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  • Alscher, Hans-Joachim (ed.). „Tarock" – mein einziges Vergnügen... Geschichte eines europäischen Kartenspiels. Viena: Brandstätter, 2003. ISBN 3-85498-283-6.
  • Berti, Giordano. Storia dei Tarocchi. Verità e leggende sulle carte più misteriose del mondo. Milão: Mondadori, 2007. ISBN 978-88-04-56596-3.
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  • Dummett, Michael; McLeod, John. A History of Games Played with the Tarot Pack. 2 vols. Lewiston, NY: Edwin Mellen Press, 2004.
  • Farley, Helen. A Cultural History of Tarot. Londres: I.B. Tauris, 2009. ISBN 978-1-84885-053-8.
  • Kaplan, Stuart R. The Encyclopedia of Tarot. Vol. II. Stamford: U.S. Games Systems, 1994. ISBN 0-913866-36-9.
  • Mayr, Wolfgang; Sedlaczek, Robert. Die Kulturgeschichte des Tarockspiels. Viena: Edition Atelier, 2015.
  • Mayr, Wolfgang; Sedlaczek, Robert. Die Strategie des Tarockspiels. Viena: Edition Atelier, 2008; nova edição 2016.
  • Parlett, David. The Oxford Guide to Card Games. Oxford: Oxford University Press, 1990.
  • Reisinger, Klaus. Tarocke. Kulturgeschichte auf Kartenbildern. 6 vols. Viena: edição do autor, 1996 e segs. ISBN 3-9500025-1-0.
  • Vácha, Martin. Handbuch Tarock: Die Kunst des Königrufens. Berndorf: Kral Verlag, 2015. ISBN 978-3-99024-323-7.

Ligações externas

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