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Escravatura

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(Redirecionado de Escravocrata)
 Nota: "Esclavagismo" redireciona para este artigo. Este artigo é sobre conceito social. Para conceito ecológico, veja Esclavagismo (ecologia).
Am I Not a Man and a Brother? ("Não sou um homem e um irmão?"): medalhão de 1787 desenhado por Josiah Wedgwood para a campanha abolicionista britânica

Escravatura,[1] denominada também de escravidão, escravismo, esclavagismo[2] ou escravagismo,[3] é a prática social em que um ser humano assume direitos de propriedade sobre outro designado por escravo ou escravizado,[nota 1][5][6] imposta por meio da violência física ou moral. Em algumas sociedades, desde os tempos mais remotos, os escravos eram legalmente definidos como uma mercadoria ou como despojos de guerra. Os preços variavam conforme as condições físicas, habilidades profissionais, idade, procedência e destino.

O dono ou comerciante pode comprar, vender, dar ou trocar por uma dívida, sem que o escravo possa exercer qualquer direito e objeção pessoal ou legal, mas isso não é regra. Não era em todas as sociedades que o escravo era visto como mercadoria: na Idade Antiga, haja vista que os escravos de Esparta, os hilotas, não podiam ser vendidos, trocados ou comprados, isto pois eles eram propriedade do Estado espartano, que podia conceder a proprietários o direito de uso de alguns hilotas; mas eles não eram propriedade particular, não eram pertencentes a alguém, era o Estado que tinha poder sobre eles. A escravidão da era moderna está baseada num forte preconceito racial, segundo o qual o grupo étnico ao qual pertence o comerciante é considerado superior; embora já na Antiguidade clássica as diferenças étnicas fossem bastante exaltadas entre os povos escravizadores, principalmente quando havia fortes disparidades fenotípicas. Na antiguidade também foi comum a escravização de povos conquistados em guerras entre nações.

Enquanto modo de produção, a escravidão assenta na exploração do trabalho forçado da mão de obra escravizada. Os senhores alimentam os seus escravos e apropriam-se do produto restante do trabalho destes. A exploração do trabalho escravo torna possível a produção de grandes excedentes e uma enorme acumulação de riquezas, e contribuiu para o desenvolvimento econômico e cultural que a humanidade conheceu em dados espaços e momentos: grandes construções como diques e canais de irrigação, castelos, pontes e fortificações, exploração de minas e florestas, desenvolvimento da agricultura em larga escala, abertura de estradas, desenvolvimento das artes e letras. De acordo com o historiador e filósofo camaronês Achille Mbembe, "a condição de escravo resulta de uma tripla perda: perda de um “lar”, perda de direitos sobre seu corpo e perda de status político. Essa perda tripla equivale a dominação absoluta, alienação ao nascer e morte social (expulsão da humanidade de modo geral). Para nos certificarmos, como estrutura político-jurídica, a fazenda é o espaço em que o escravo pertence a um mestre. Não é uma comunidade porque, por definição, implicaria o exercício do poder de expressão e pensamento."[7]

Nas civilizações escravagistas, não era pela via do aperfeiçoamento técnico dos métodos de produção (que se verifica com a Revolução Industrial) que os senhores de escravos procuravam aumentar a sua riqueza. Os escravizados, por outro lado, sem qualquer interesse nos resultados do seu trabalho, não se empenhavam na descoberta de técnicas mais produtivas. Atualmente, apesar de a escravidão ter sido abolida em quase todo o mundo, ela ainda continua existindo de forma legal no Sudão e de forma ilegal em muitos países, com destaque para a Índia, China, Paquistão, Nigéria, Etiópia, Rússia, Arábia Saudita, Tailândia, República Democrática do Congo, Mianmar, Bangladesh, Mauritânia, Haiti, Coreia do Norte, Eritreia, Burundi, República Centro Africana, Afeganistão, Cambodja, Irão e Nepal.[8][9][10]

Etimologia

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A palavra "escravo" é derivada do grego sklábos (sendo uma derivação de sklabēnós) e do latim medieval sclavus, traduzido como eslavo.[11] Originalmente era referência aos povos eslavos, que se localizavam geograficamente na maior parte na Europa Oriental tal como os slovĕninŭ,[12] e que foram escravizados em massa na Alta Idade Média por conta das suas derrotas em guerras contra os germânicos.[13]

História

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Escravidão ao longo da história:
Comerciante de Meca (direita) e seu escravo branco circassiano. Intitulado Vornehmner Kaufmann mit seinem cirkassischen Sklaven ("distinto comerciante e seu escravo circassiano) por Christiaan Snouck Hurgronje ca. 1888 (ver: Escravidão branca)
Escravos no Império Romano
O Mercado de Escravos, de Gustave Boulanger, representando a escravidão na Roma Antiga
Uma escrava sendo leiloada na Antiguidade, num quadro do pintor francês Jean-Léon Gérôme
Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon Gérôme

Há diversas ocorrências de escravatura sob diferentes formas ao longo da história, praticada por civilizações distintas. No geral, a forma mais primária de escravatura se deu na medida em que povos com interesses divergentes guerreavam, resultando no acúmulo de prisioneiros de guerra. Apesar de, na Idade Antiga, ter havido comércio de pessoas escravizadas, não era necessariamente esse o fim reservado a esse tipo de espólio de guerra. Vale destacar que algumas culturas com um forte senso patriarcal reservavam, à mulher, uma hierarquia social semelhante à do indivíduo escravizado, negando-lhe direitos básicos que constituiriam a noção de cidadão.

Antiguidade

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A escravidão na Antiguidade constituiu a base do modo de produção da chamada Antiguidade Clássica. A escravidão é um tipo de relação de trabalho que existia há muito tempo na história da humanidade. Já na Antiguidade, o código de Hamurábi, conjunto de leis escritas da civilização babilônica, apresentava itens discutindo a relação entre os escravos e seus senhores. Não se restringindo aos babilônios, a escravidão também foi utilizada entre os egípcios, assírios, hebreus, gregos e romanos. Dessa forma, podemos perceber que se trata de um fenômeno histórico extenso e diverso. Em Atenas, boa parte dos escravos era proveniente de regiões da Ásia Menor e Trácia. Em geral, eram obtidos por meio da realização de guerras contra diversos povos de origem estrangeira. Os traficantes realizavam a compra dos inimigos capturados e logo tratavam de oferecê-los em algum lucrativo ponto comercial. Mesmo ocupando uma posição social desprivilegiada, os escravos tinham diferentes posições dentro da sociedade ateniense. Alguns escravos eram utilizados para formar as forças policiais da cidade de Atenas. Outros eram usualmente empregados em atividades artesanais e, por conta de suas habilidades técnicas, tinham uma posição social de destaque. Em certos casos, um escravo poderia ter uma fonte de renda própria e um dia poderia vir a comprar a sua própria liberdade. Em geral, os escravos que trabalhavam nos campos e nas minas tinham condições de vida piores se comparadas às dos escravos urbanos e domésticos. A escravidão ateniense não era marcada por nenhuma espécie de distinção com relação aos postos de trabalho a serem ocupados. O uso de escravos tinha até mesmo uma grande importância social ao conceder mais tempo para que os homens livres tivessem tempo para participar das assembléias, dos debates políticos, filosofar e produzir obras de arte. Conforme algumas pesquisas, a classe de escravos em Atenas chegou a compor cerca de um terço da população no Período Clássico.

No caso da cidade-Estado de Esparta, a escravidão tinha uma organização distinta. Os escravos, ali chamados de hilotas, eram conseguidos por meio das vitórias militares empreendidas pelas tropas espartanas. Não dando grande importância às práticas comerciais, por causa de sua cultura xenófoba, a escravidão não articulava um comércio de seres humanos no interior desta sociedade. Os escravos eram de propriedade do Estado e ninguém poderia ser considerado proprietário de um determinado escravo. No primeiro século as relações entre o escravo e o seu senhor começaram a sofrer algumas alterações impostas pelo governo romano. Uma das obrigações essenciais do senhor consistia em dar uma boa alimentação ao seu escravo e mantê-lo bem vestido. No século I, os senhores foram proibidos de castigar seus escravos até a morte e, caso o fizessem, poderiam ser julgados por assassinato. Além disso, um senhor poderia dar parte de suas terras a um escravo ou libertá-lo sem nenhuma prévia indenização.

Roma Antiga

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A Escravidão na Roma Antiga implicava uma quase absoluta redução nos direitos daqueles que ostentavam essa condição, convertidos em simples propriedades dos seus donos. Teve papel importante na sociedade e na economia. Escravos não qualificados ou de baixa habilidade trabalhavam nos campos, minas e fábricas com poucas oportunidades de progresso e pouca chance de liberdade. Escravos habilidosos e educados, incluindo artesãos, chefs, funcionários domésticos e assistentes pessoais, artistas, gestores de negócios, contadores e banqueiros, educadores em todos os níveis, secretários e bibliotecários, funcionários públicos e médicos, ocupavam um estrato mais privilegiado de servidão e podiam aspirar à liberdade por meio de diversos caminhos bem definidos, com proteções legais. A possibilidade de alforria e subsequente cidadania era uma característica distintiva do sistema de escravidão de Roma, resultando num número significativo e influente de libertos na sociedade romana.

Em todos os níveis de ocupação, trabalhadores livres, os escravizados e ex-escravizados em geral desempenhavam em grande parte os mesmos tipos de trabalhos. Os romanos da elite, cuja riqueza vinha da posse de propriedades, viam pouca diferença entre a escravidão e a dependência de salários provenientes do trabalho. Os escravos eram considerados propriedade conforme a lei romana e não tinham direitos de personalidade jurídica. Ao contrário dos cidadãos romanos, por lei, eles podiam ser submetidos a castigos corporais, exploração sexual, tortura e execução sumária. As formas mais brutais de punição eram reservadas para os escravos. A adequação de sua alimentação, moradia, vestuário e cuidados de saúde dependia de sua utilidade percebida pelos proprietários, cujos impulsos poderiam ser cruéis ou, situacionalmente, humanitários.

Algumas pessoas nasceram em escravidão como filhos de uma mãe escravizada. Outras tornaram-se escravas. Cativos de guerra eram considerados legalmente escravizados e as expansões militares romanas durante a era Republicana era uma importante fonte de escravos. Do século II a.C. até a Antiguidade Tardia, sequestros e pirataria colocavam pessoas nascidas livres em risco de escravização ilegal em toda a região do Mediterrâneo, sendo os filhos de famílias pobres especialmente vulneráveis. Embora uma lei tenha sido aprovada para proibir a escravidão por dívida muito cedo na história de Roma, algumas pessoas se vendiam na escravidão contratual para escapar da pobreza. O comércio de escravos, levemente taxado e regulamentado, prosperava em todas as partes do Império Romano e além de suas fronteiras.

Na antiguidade, a escravatura era vista como a consequência política do domínio de um grupo sobre outro e pessoas de qualquer raça, etnia ou local de origem podiam tornar-se escravas, incluindo romanos nascidos livres. A escravidão era praticada em todas as comunidades do Império Romano, inclusive entre judeus e cristãos. Mesmo as famílias modestas poderiam esperar ter até dois ou três escravos. Um período de rebeliões de escravos chegou ao fim com a derrota de Espártaco em 71 a.C.; as revoltas de escravos tornaram-se raras na era Imperial, quando a fuga individual era uma forma mais persistente de resistência. A caça a escravos fugitivos era a forma mais concentrada de policiamento no Império Romano.

O discurso moral sobre a escravidão estava majoritariamente preocupado com o tratamento dispensado aos escravos. Pontos de vista abolicionistas eram praticamente inexistentes na sociedade antiga. Inscrições feitas por escravos e libertos, assim como a arte e a decoração de suas casas, oferecem vislumbres de como eles se viam. Alguns escritores e filósofos da era romana eram ex-escravos ou filhos de libertos. Alguns estudiosos fizeram esforços para imaginar mais profundamente as experiências vividas pelos escravos no mundo romano através de comparações com o tráfico atlântico de escravos, mas nenhum retrato do escravo romano "típico" emerge da ampla gama de trabalhos realizados por escravos e libertos, e das complexas distinções entre seus status sociais e legais.

O imperador Justiniano I publicou o edito Institutas, em novembro do ano de 533, no qual define a servidão e os servos:[14]

"Título III: do direito das pessoas

  • A divisão principal no direito das pessoas é que todos os homens ou são livres ou escravos.
  • A liberdade (da qual vem a palavra 'livre') é o poder natural de fazer cada um, o que quer, se a violência ou a lei não lho proíbe.
  • A servidão é uma instituição do direito das gentes, pela qual é alguém submetido contra a natureza ao domínio de outrem.
  • Os servos são assim chamados porque os generais costumam vender os cativos e destarte conservá-los sem os matar. Eles têm também o nome de — mancipia — porque são tomados à mão de entre os inimigos.
  • Os servos, ou nascem tais, ou fazem-se. Nascem das nossas escravas: fazem-se ou pelo direito das gentes mediante a captura, ou pelo direito civil, quando um homem livre, maior de vinte anos, consentiu em ser vendido para compartilhar do preço.
  • Não há diferença na condição dos servos, e há muitas entre os livres; pois estes ou são ingênuos [isto é, aquele que nasce livre] ou são libertos."

Escandinávia

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Thrall — em sueco träl, em dinamarquês e norueguês træl (pronunciado /tré:l/) — era um escravo na Escandinávia, na Idade do Ferro e na Idade Média inicial. O equivalente feminino era designado de ambátt.[15][16][17]

A maioria dos escravos trabalhava no cultivo das terras, na criação de gado, na construção de casas e barcos, nos trabalhos domésticos.[15][18]
Um escravo escandinavo não tinha liberdade nem direitos, podendo ser comprado, vendido, maltratado ou assassinado pelo dono.[19]

Os escravos nas terras escandinavas tinham principalmente três origens:[15]

Mas também se podia ser condenado à escravatura por dois outros motivos:

Não se sabe quando a escravatura começou na Escandinávia, oscilando as hipóteses entre a Idade da Pedra e os tempos do Império Romano. Foi sucessivamente abolida, tendo desaparecido completamente no século XIII, no início da Idade Média nórdica.[20] Na Suécia, um decreto medieval de Magno II da Suécia, na Gotalândia Ocidental em 1335, manda que filhos de pais cristãos não podem ser escravos.[21][15][22][23]

América Pré-Colombiana

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Nas civilizações pré-colombianas (asteca, inca e maia), os escravos não eram obrigados a permanecer como tais durante toda a vida. Podiam mudar de classe social e normalmente tornavam-se escravos até quitarem dívidas que não podiam pagar. Eram empregados na agricultura e no exército. Entre os incas, os escravos recebiam uma propriedade rural, na qual plantavam para o sustento de sua família, reservando ao Sapa (imperador inca) uma parcela maior da produção em relação aos cidadãos livres. No Brasil, a escravidão começou com os índios [24] (ver: Escravidão indígena no Brasil). Os índios escravizavam prisioneiros de guerra, na Era Pré-cabralina, muito antes da chegada dos portugueses.[25]

Segundo o professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Cláudio Alves de Vasconcelos:

No entanto, sabe-se que as práticas de escravização, entre os indígenas americanos, remontam mesmo ao período pré-colonial – a despeito das visões que representavam, ou que ainda representam, a América do período anterior à conquista como um paraíso total, onde não existiam violências, não havia hierarquias sociais, a guerra era desconhecida e onde tudo caminhava em grande harmonia.[25]
Principais redes do comércio árabe de escravos em África na Idade Média

A escravatura era largamente praticada na Arábia pré-islâmica, bem como no resto do mundo seu contemporâneo. Após o surgimento do Islão, que proibia que um muçulmano escravizasse outro muçulmano, os escravos tinham de ser procurados no exterior do império, por captura, compra ou tributo.[26][27]

A súbita riqueza resultante da expansão militar, dos saques, cobrança de impostos e desenvolvimento do comércio, levou ao enorme aumento do comércio de escravos.[28] Os escravos eram necessários para os trabalhos penosos, como a mineração, mas também como soldados, guardas, trabalhadores domésticos, concubinas e eunucos para os haréns.[29]

O tráfico de escravos árabe ou islâmico durou muito mais tempo do que o comércio atlântico de escravos ou europeu e atingiu números semelhantes. Começou em meados do século VII e sobrevive hoje ainda na Mauritânia e no Sudão.[30]

Numa primeira fase, os escravos provinham principalmente dos países recentemente conquistados - do Crescente Fértil, do Egito, do Irão e do Norte de África, da Ásia Central, da Índia e de Espanha. Grande parte destes escravos tinha um nível cultural pelo menos tão elevado como o dos seus senhores árabes.[31] Quando a obtenção de escravos brancos se tornou mais difícil, o tráfico passou a centrar-se em África. As duas rotas mais importantes foram a rota transaariana[32] e a rota transíndica.[33]

Paul Lovejoy estima que cerca de 6 milhões de escravos negros foram transportados através do Saara entre os anos 650 d.C. e 1500 d.C.[34]

As estimativas do número total de escravos negros transportados da África subsaariana para o mundo árabe variam entre 6 e 10 milhões, e as rotas comerciais transaarianas transportaram um número significativo deste total, com uma estimativa de cerca de 7,2 milhões de escravos atravessando o Sara desde meados do século VII até ao século XX, altura em que a escravatura foi abolida.[35][36]

Durante as conquistas muçulmanas na Índia, iniciadas por Muhammad bin Qasim até aos dias de Ahmad Shah Durrani no século XVIII, a escravidão, distribuição e venda de escravos hindus foram sistematicamente praticados pelos invasores. [37]

É apenas possível fazer uma estimativa do número total de mortes de hindus nas mãos dos invasores. Pensa-se que foram mortos mais de 6 milhões; para além das mortes, milhões de hindus desapareceram pela escravidão.[38]

Era moderna

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Comércio Triangular, usado no comércio atlântico de escravos, entre os séculos XVI e XIX

O comércio de escravos já tinha rotas intercontinentais na época do Alandalus e mesmo antes, durante o Império Romano. Criam-se novas rotas no momento em que os europeus começaram a colonizar os outros continentes, no século XVI e, por exemplo, no caso das Américas, nos casos em que os povos locais não se prestavam a suprir as necessidades de mão de obra dos colonos, foi necessário importar mão de obra, principalmente da África.

Nessa altura, muitos reinos africanos e árabes islâmicos, decorrente das chamadas guerras santas (Jihads) empreendidas pelos muçulmanos, os quais, sancionados por sua religião, se apossavam dos bens dos chamados "infiéis" submetidos, principalmente sua liberdade, vendendo-os ou trocando-os por mercadorias, como escravos para os europeus (ver: Escravismo e Islã). No Brasil, depois da chegada dos europeus, no século XVI, os índios passaram a comerciar seus prisioneiros de guerra com estes. Mais tarde, os portugueses recorreram aos negros africanos, que foram utilizados nas minas e nas plantações: de dia faziam tarefas costumeiras, à noite carregavam cana e lenha, transportavam formas, purificavam, trituravam e encaixotavam o açúcar.

Em alguns territórios brasileiros, no entanto, o índio chegou a ser mais fundamental que o negro como mão de obra. Em São Paulo, até ao final do século XVII, quase não se encontravam negros dada a pobreza de sua população, que não dispunha de recursos financeiros para adquirirem escravos africanos. Os documentos da época que usavam o termo "negros da terra" referiam-se, na verdade, aos índios, os quais não eram objeto de compra e venda, só de aprisionamento, sendo proibido inclusive que se fixasse valor para eles nos inventários de bens de falecidos. Esta posição fora defendida pelos jesuítas no Brasil, o que gerou conflitos com a população local interessada na escravatura, culminando em conflito, na chamada "A botada dos padres fora" em 1640. Com o ciclo da cana-de-açúcar, foram introduzidos em largas escalas escravos africanos em São Paulo.

Durante o Ciclo do café, o trabalho dos escravizados era controlado a partir do casarão da fazenda e a lei vigente estava completamente ao lado do fazendeiro. Havia ainda os castigos corporais.[39]

A escravidão era a engrenagem econômica da fazenda. Nas senzalas viviam numerosos escravos africanos e crioulos, encarregados da derrubada das mattas, plantio, capinas, colheita e preparo do café. Ou seja, além dos trabalhos com o café, os escravizados eram responsáveis por todas as tarefas braçais que faziam com que as fazendas funcionassem e fossem lucrativas, incluindo os cuidados dentro da casa grande e outras tarefas dispostas ao longo da propriedade rural: carpinas, serradores, marceneiros, pedreiros, pintores e preparadores de tintas, ferreiros, oleiros, alfaiates, sapateiros para os senhores e os escravos, seleiros etc.[40]

Existiam também os escravizados domésticos, que trabalhavam no serviço pessoal do fazendeiro e de sua família. Entre eles, havia as mucamas-arrumadeiras, mulheres que ocupavam-se da arrumação da casa, das refeições e até mesmo de preparar os banhos da família senhorial e de seus hóspedes. Nas cozinhas e despensas predominava a figura feminina, cada uma com sua especialização: cozinheira-chefe, ajudantes, doceiras, biscoiteiras, entre outras. Às crianças escravizadas era dada a responsabilidade do asseio de tachos e panelas.[41]

Os homens criados domésticos eram geralmente copeiros (serviam a mesa) ou pajens (camareiros de confiança). Os boticários e enfermeiros completavam o quadro de trabalhadores masculinos. Dentre os femininos ainda se empregava um verdadeiro esquadrão de lavadeiras e engomadeiras.[41]

Abolicionismo

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Convenção da Sociedade Anti-Escravidão em 1840
Venda de esposas na Inglaterra numa ilustração cômica (1820). A cena é ambientada em um mercado, e o marido é mostrado sobreposto a um par de chifres, um símbolo tradicional da infidelidade conjugal. A prática de venda de esposas perdurou na Inglaterra do século XVIII ao início de Século XX[42]

Ainda que outras formas de escravidão ainda persistam no mundo contemporâneo, chama-se de abolicionismo o movimento político que visou a abolição da escravatura e do tráfico de escravos que existia abertamente, tendo suas origens durante o Iluminismo no século XVIII. Tal movimento se tornou uma das formas mais representativas de ativismo político do século XIX até à atualidade.

Em Fevereiro de 1761, no reinado de D. José I, foi proibida a importação de escravos negros em Portugal Continental e na Índia, não por razões humanitárias, mas principalmente económicas, por serem mão de obra necessária no Brasil. Ao mesmo tempo foi estimulado o comércio de escravos negros ("as peças", nos termos do tempo) para aquela colónia, tendo sido fundadas, com o apoio e envolvimento direto do Marquês de Pombal, duas companhias - a Companhia do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba - cuja atividade principal era precisamente o tráfico de escravos, na maioria africanos, para terras brasileiras. Na lista de acionistas das duas companhias contavam-se, além do Marquês, muitos nobres e clérigos.[43][44][45] Entre 1757 e 1777, foram importados um total de 25 365 escravos negros para o Pará e Maranhão, vindos dos portos oeste-africanos.[46]

Mais tarde, com o surgimento do ideal liberal e da ciência econômica na Europa, a escravatura passou a ser considerada pouco produtiva e moralmente incorreta. Em 1850, no Brasil, pela Lei Eusébio de Queirós, passou-se a punir os traficantes de escravos, de modo a que nenhum escravo mais entrasse no país; em 1871 foi sancionada a Lei do Ventre Livre que declarava livre os filhos de escravos nascidos a partir daquele ano, e em 1885 a Lei dos Sexagenários, que concedia liberdade aos maiores de 60 anos. E mais tarde fez surgir o abolicionismo, em meados do século XIX. Em 1888, quando a escravidão foi abolida no Brasil, pela Lei Áurea, ele era o único país ocidental que ainda mantinha a escravidão legalizada.

A Mauritânia aboliu a escravidão por três vezes - em 1905, 1981, e mais uma vez em 2007- mas a escravidão continua a existir e os ativistas antiesclavragismo são perseguidos, presos e torturados.[47][48] A escravidão segue existindo no Sudão, assim como em vários outros países.[49]

Era contemporânea

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Países de origem (amarelos e vermelhos) e destino (azuis) do tráfico humano
Incidência de casos de escravidão por porcentagem da população por país (dados de 2024)

A escravidão continua em muitos países que a proibiram. Em alguns casos, a legislação que proíbe a escravidão foi somente feita pela pressão de outros países e da ONU, mas não representa a vontade do governo do respectivo país. Hoje em dia existem pelo menos 27 milhões de pessoas escravizadas no mundo.[50] A Organização Internacional do Trabalho (OIT) classifica em sua convenção de nº 29 do ano de 1930: "trabalho forçado ou obrigatório compreenderá todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente".[51] Principalmente em países árabes e outros países muçulmanos existem ainda escravos tradicionais.[52]

A caça de negros escravizados, visando à captura de moças e crianças bonitas para serem escravas domesticas ou ajudantes para vários trabalhos, existe principalmente no Sudão. Na escravidão branca (tráfico humano para a prostituição forçada) se encontram presas milhões de moças, principalmente de regiões pobres na Ucrânia, Moldávia, Rússia, África, Índia e países onde a prostituição tem tradicionalmente muito peso, como a Tailândia e as Filipinas. As meninas são aliciadas com falsas promessas, vendidas e forçadas a prostituir-se até a dívida (o preço pela compra e adicionais) ser paga. Muitas vezes a prostituta escravizada é vendida a seguir e tudo começa de novo. Existe também um semelhante tráfego com crianças, que trabalham como escravas em outros países. Muitas vezes eles são mutilados e obrigadas a mendigar e entregar tudo aos seus donos. Além disso existem várias outras formas de escravidão. Os preços variam muito. Enquanto moças bonitas vendidas para países rendem até 20 000 dólares, se compra às vezes crianças e mocinhas adolescentes na Moldávia, sul da Índia, Paquistão ou China em orfanatos ou de famílias pobres por menos de 100 dólares. Nessas estatísticas nem são contadas milhões de mulheres e meninas, que pela tradição ou até as leis em muitos países muçulmanos e outras regiões são consideradas propriedade de seus maridos ou pais.

O tráfico de mulheres brancas escravizadas continua a todo vapor em Israel, onde cerca de duas mil jovens originárias da ex-URSS foram levadas à força nos últimos anos e obrigadas a prostituir-se.[53] De acordo com o livro "In Foreign Parts: Trafficking in Women in Israel" (Em Regiões Estrangeiras: Traficando Mulheres em Israel), de Ilana Hammerman, publicado em 2004, milhares de mulheres são abduzidas anualmente, a maioria da Rússia, Ucrânia, Moldávia, Uzbequistão e China, e comerciadas em Israel.

Alguns analistas entendem que os regimes ditatoriais como a Coreia do Norte seriam regimes de escravidão pois os trabalhadores produzem em benefício de um grupo que não pode ser retirado de sua posição de poder dominante, fazendo este serviço em troca de comida (ração fornecida pelo estado totalitário) sem poder ter outra opção, pois em caso de algum desacordo com os representantes do regime no local de trabalho ele ficaria sem a sua cota de alimento ou muito provavelmente seria preso e executado. O governo ucraniano foi a primeira nação contemporânea a tentar introduzir, em 2014, a volta de uma legislação escravagista — o chamado "serviço de trabalho estatal".[54] No entanto, segundo a National Geographic, há mais pessoas escravizadas hoje do que o total de escravos que, durante quatro séculos, foram vítimas do tráfico transatlântico.[50]

Religião

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Cristianismo

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A Bíblia traz vários preceitos sobre escravos e regulamenta aspectos da escravidão, mas em nenhum momento, condena a prática da escravidão em si, tanto no Velho Testamento,[55][56] como no Novo Testamento. Israelitas homens deveriam ter a opção de liberdade após seis anos de trabalho com algumas condições.[57][58][59] Estrangeiros escravizados e seus descendentes se tornavam propriedade perpétua da família que os possuía.[60]

Deuteronômio 23:16 proíbe entregar um escravo fugitivo. Dt 23:17 proíbe enganar um escravo fugitivo. Levítico 25:39 proíbe utilizar um escravo hebreu em tarefas degradantes. Levítico 25:42 proíbe vender um escravo hebreu em leilão. Levítico 25:43 proíbe utilizar um escravo hebreu para trabalho desnecessário. Lev. 25:53 proíbe que se maltrate um escravo hebreu. Êxodo 21:8 proíbe a venda de escrava hebreia e proíbe privações a uma escrava hebreia que se desposou. Dt. 21:14 proíbe escravizar uma prisioneira depois de tê-la tomado. Êxodo 20:17 ordena:

"Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava".

Deuteronômio 5:14 prescreve o descanso também do escravo no sábado:

No sétimo dia da semana é o dia de descanso, dedicado a mim, o seu Deus. Não faça nenhum trabalho nesse dia, nem você, nem os seus filhos, nem as suas filhas, nem os seus escravos, nem as suas escravas, nem os seus animais, nem os estrangeiros que vivem na terra de você. Assim como você descansa, os seus escravos também devem descansar”, e Deuteronômio 5:15 acrescenta: “Lembre que você foi escravo no Egito e que eu, o Senhor, seu Deus, o tirei de lá com a minha força e com o meu poder.”

A Torá também prescreve: Em Ex. 21:2 que quando um escravo hebreu deve ser alforriado 7 anos depois da compra. Em Ex: 21:8 ordena que se a escrava hebreia não agradar ao senhor que prometeu desposá-la, ele terá que permitir seu resgate. Em Lev. 25:46 e em Ex 21:26 diz que um escravo cananeu deve ser escravo para sempre salvo se

"se alguém ferir o olho do seu escravo, e ele perder a vista, o escravo terá de ser libertado como pagamento pelo olho perdido".

Em Êx. 21:7 se ordena que

"Se um homem vender sua filha para ser escrava, esta não lhe sairá como saem os escravos".

No Novo Testamento, em Efésios 6:5 está escrito sobre servos escravizados:

"Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo".

Em I Coríntios 7:21, 22, 23, lê-se:

"Foste chamado, sendo escravo? não te dê cuidado; mas se podes ainda tornar-te livre, antes aproveita-te."
"Pois o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; da mesma maneira o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo."
"Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens."

Igreja Católica

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A Igreja Católica desde o século XV, pronunciou várias posições através de vários papas, habitualmente aprovando a escravidão. Em 13 de Janeiro de 1435, através da bula Sicut Dudum o Papa Eugénio IV, manda restituir à liberdade os escravos convertidos ao cristianismo ou em processo de conversão das Ilhas Canárias.[61]

Pela Bula Dum Diversas, de 18 de Junho de 1452, o papa Nicolau V autorizou o rei de Portugal D. Afonso V, e seu sucessores, a conquistar e subjugar as terras dos "infiéis", pagãos e outros "inimigos de Cristo" , reduzir as suas pessoas à escravatura perpétua, e "apropriar os seus reinos, ducados, palácios reais, principados e outros domínios, possessões e bens deste tipo a si e ao seu uso e aos seus sucessores, os Reis de Portugal".[62][63] Essa bula foi mais tarde reafirmada pela bula Romanus Pontifex em 8 de Janeiro de 1454 do mesmo papa.[64]

Nos séculos seguintes, contra a escravidão e o tráfico se pronunciam os papas Gregório XIV (1590-1591), por meio do breve apostólico Cum Sicuti[65] (1591),Urbano VIII (1623-1644), no breve apostólico Commissum Nobis[66] (1639) e Bento XIV (1740-1758) no breve apostólico Immensa Pastorum[67] (1741). No século XIX, no mesmo sentido se pronunciou o papa Gregório XVI (1831-1846) ao publicar a bula In Supremo Apostolatus[68] (1839). Em 1888, o Papa Leão XIII, na encíclica In Plurimis,[69] dirigida aos bispos do Brasil, pediu-lhes apoio ao Imperador (Dom Pedro II) e a sua filha (Princesa Isabel), na luta que estavam a travar pela abolição definitiva da escravidão.

Na prática não houve oposição da Igreja à escravização dos negros durante o Brasil Colonial (séculos XV - XIX). Muito pelo contrário, destacavam-se entre os grandes proprietários de escravos os membros de ordens cristãs como a dos beneditinos.[70]

Por região

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Transporte de escravos na África. Gravura de 1890

O estudo do processo de escravização dos povos africanos é essencial para que se compreenda a história atual de desigualdade no planeta. Revela uma longa história de exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas, embora por vezes num grau de civilização inferior. Demonstra também que a desestruturação econômica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração.

Do ponto de vista econômico, a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva. Parte do atual contexto socioeconômico da África de miséria e exclusão é consequência de fatos passados. Muitos analistas comparavam a escravidão africana em menor escala associada a servidão linhageira com as economias orientais.[71] A escravatura na África contemporânea ainda é praticada, apesar de ilegal.[72]

Escravidão subsariana

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Principais redes de tráfico árabe de escravos em África na Idade Média
Traficantes de escravos árabes e seus cativos ao longo do rio Rovuma, entre a Tanzânia e Moçambique
Mercado de escravos no Iemen do séc.XIII

Durante séculos, milhões de africanos subsarianos foram vendidos como escravos no Norte de África.[73]
Entre 650 e 1800, foram vendidos como escravos 17 milhões de africanos provenientes das terras ao sul do deserto do Sara. Os compradores viviam no Egito, Sudão, Líbia, Marrocos, etc...
Inúmeros testemunhos, desde a Idade Média europeia, corroboram este acontecimento histórico. Mas a falta de documentação e de estatísticas tornam impossível saber o número exato de pessoas envolvidas neste processo histórico.
O investigador americano Ralph A. Austen [74] fez um estudo intitulado ”The Trans-Saharan Slave Trade: A Tentative Sensus”, incluído na obra ”The Uncommon Market: Essays in the Economic History of the Atlantic Slave Trade”, redigida por Henry A. Gemery e Jans S. Hogendorn,[75] tendo chegado à conclusão de que poderia tratar-se de uns 17 milhões de escravos subsarianos no período de 650-1800.[73][76][77]

"Família Guarani aprisionada por escravistas",
tela de Jean-Baptiste Debret, 1930

Na Era Pré-cabralina, os índios brasileiros escravizavam inimigos derrotados capturados nas guerras indígenas.[24] A mais antiga forma de escravidão no Brasil Colônia foi dos "gentios da terra" ou "negros da terra", os índios (ver: Escravidão indígena no Brasil). A escravização de índios foi proibida pelo Marquês de Pombal. Em menor escala, a escravidão branca também foi praticada no colônia.[78]

Os primeiros negros escravizados chegaram ao Brasil entre 1539 e 1542, na Capitania de Pernambuco, primeira parte da colônia onde a cultura canavieira desenvolveu-se efetivamente. Foi uma tentativa de solução à "falta de braços para a lavoura", como se dizia então.[79]

A escravidão branca, existente no Império do Brasil, era vista como "anormal", gerando comoção na opinião pública e motivando campanhas de arrecadação para libertar brancos escravizados.[80] No período da pós-abolição no Brasil, em algumas regiões de cafeicultura, imigrantes portugueses e alemães empregados por fazendeiros, eram alojados nas antigas senzalas, trabalhando em condições análogas à escravidão.[78]

Abolicionismo

A história do abolicionismo no Brasil remonta à primeira tentativa de abolição da escravidão indígena no Brasil, em 1611, à sua abolição definitiva pelo Marquês de Pombal, em 1755 e 1758, durante o reinado de D. José I, e aos movimentos emancipacionistas no período colonial, particularmente a Conjuração Baiana de 1798, em cujos planos encontrava-se a erradicação da escravidão. Após a Independência do Brasil (1822), as discussões a este respeito estenderam-se por todo o período do Império, tendo adquirido relevância a partir de 1850 e caráter verdadeiramente popular a partir de 1870, culminando com a assinatura da Lei Áurea de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil.

Estados Unidos

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Animação dos territórios e estados dos Estados Unidos que proibiam e permitiam a escravidão, 1789–1861.

A Escravidão nos Estados Unidos foi uma instituição legal de escravização, principalmente de africanos e afro-americanos, chegando ao seu auge nos séculos XVIII e XIX. A escravidão praticada na América do Norte existia desde o período colonial, com os primeiros escravos africanos chegando aos Estados Unidos continentais em 1526 (quase três décadas após a chegada da primeira expedição europeia ao Novo Mundo) trazidos pelos espanhóis. Já nas Treze Colônias, os primeiros escravos da América Britânica chegaram na recém fundada cidade de Jamestown, Virgínia, em 1619. No período da Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776, a escravidão era legal e presente em todas as Treze Colônias. Em 1865, quando foi abolida pela Décima Terceira Emenda da Constituição, ela estava presente em metade dos estados da União. Como um sistema laboral, foi vital para o sucesso econômico dos Estados Unidos no começo de sua história e quando foi feito ilegal, foi substituída nas fazendas por sharecropping (uma forma de parceria rural) e trabalhos forçados de presos do sistema carcerário, mirando principalmente afro-americanos, que continuaram em um sistema análogo a escravidão por quase um século após a guerra civil de 1861-65.[81]

Gordon, um escravo de Baton Rouge, Louisiana, em 1863. As cicatrizes são resultado das chibatadas de seu capataz, que foi afastado logo após o fato. Foram necessários dois meses para se recuperar do açoitamento.

No período da Revolução Americana (1775–1783), o status de escravo havia sido institucionalizado como uma casta racial, na parte mais baixa da hierarquia social, formada quase que exclusivamente por negros de ascendência africana, amparada por provisões legais dentro Constituição do país.[82] Em 1789, o número de pessoas de cor livres que eram cidadãos e podiam votar era quase nulo.[83] Porém, pouco tempo depois da guerra de independência, as primeiras leis abolicionistas foram passadas nos estados do norte e o movimento para abolir a escravidão cresceu na primeira metade do século XIX. Os estados nortenhos dependiam de mão de obra livre e a maioria tinha abolido a escravidão por volta de 1805 (embora nem todos os escravos tenham sido libertados imediatamente). A expansão rápida da indústria do algodão no extremo sul após a invenção da máquina de tecer, fez com que a demanda por trabalho escravo no sul dos Estados Unidos aumentasse exponencialmente. Os estados escravagistas tentaram expandir a escravidão para os estados novos formados nos territórios do oeste para que assim eles pudessem manter sua influência política pela nação. Os líderes políticos sulistas queriam anexar Cuba como um território escravagista. A questão da escravidão continuaria a polarizar politicamente os Estados Unidos durante toda a primeira metade do século XIX, efetivamente dividindo o país entre os estados escravos e livres, na altura da linha Mason–Dixon.

Durante o governo de Thomas Jefferson, o Congresso dos Estados Unidos passou uma lei proibindo a importação de escravos, em 1808, embora o tráfico ilegal, via Flórida espanhola, continuasse comum.[84][85] O comércio interno de escravos, contudo, permaneceu legal e cresceu consideravelmente já que a demanda das plantações, movida principalmente pelo algodão no sul, aumentava ano a ano. Na primeira metade do século XIX, mais de um milhão de escravos foram vendidos no sul, especialmente próximos a fronteira, e levados para as plantações no extremo sul do país em migrações forçadas. Nesse contexto, embora crianças não pudessem ser separadas de suas mães antes de completarem 12 anos, a prática era comum, assim como estupros a mulheres. Embora passassem por um processo de desumanização e maus tratos, as comunidades afro-americanas no sul foram se desenvolvendo e tentavam preservar sua cultura. Em 1865, havia mais de 4 milhões de afro-americanos em condição de escravidão. No sul dos Estados Unidos, em 1860, eles eram 3,5 milhões (31% da população), com 25% das famílias brancas no sul tendo ao menos um escravo trabalhando para eles de forma permanente (aluguel de escravos também era uma opção comum para aqueles que não podiam pagar para manter um). No país como um todo, antes da guerra civil começar, cerca de 8% das famílias de americanos brancos tinha escravos.[86][87][88]

Com novos estados sendo criados no oeste dos Estados Unidos após anos de expansão dos assentamentos, os governos dos estados do sul começaram a tentar manter o balanço de poder no país entre o número de estados que eram escravagistas e os que eram livres, para assim manter o controle político sobre o Congresso, garantindo a preservação da escravidão como uma instituição legal. Os novos territórios adquiridos dos britânicos, franceses e mexicanos geraram vários compromissos políticos e negociações em Washington. Em 1850, os estados do sul, cada vez mais ricos com o comércio de algodão, começaram a ameaçar o Norte de secessão caso a escravidão fosse abolida e as tensões com os estados abolicionistas continuou. Muitos cristãos sulistas, incluindo ministros de igrejas, tentavam justificar sua posição pró escravidão com passagens bíblicas e uma noção de "paternalismo cristão".[89] As maiores denominações — os batistas, metodistas e os presbiterianos — se dividiam em relação a escravidão, com os nortenhos se opondo e os sulistas em apoio.

Representação da proclamação do fim da escravidão (E.G. Renesch).

Em 1860, Abraham Lincoln venceu as eleições presidenciais com uma plataforma de deter a expansão da escravidão nos Estados Unidos. Temendo que Lincoln implementasse leis antiescravagistas, sete estados romperam com a União antes mesmo do presidente-eleito assumir o cargo. Quando outros quatro estados sulistas se uniram a esses sete, eles formaram os Estados Confederados da América com o intuito declarado de "preservar suas culturas e tradições" e manter a instituição da escravidão. Os estados que optaram pela secessão mais cedo eram aqueles que detinham o maior número de escravos e tinham uma economia completamente dependente de trabalhos forçados. O que se seguiu foi uma guerra civil que durou quatro anos e matou mais de 600 mil pessoas. Durante a guerra, a União passou as chamadas "leis de confisco", capturando e libertando os escravos do sul, até que, em 1863, o presidente Lincoln assinou a Proclamação de Emancipação, que efetivamente libertava todos os escravos do sul e tornou a guerra contra a independência do sul em uma "cruzada moral" contra a escravidão. Em 1865, foi passada a Décima Terceira Emenda à Constituição americana, abolindo a escravidão em todo o território dos Estados Unidos (embora alguns estudiosos argumentam que a escravidão continua em formas modernas dentro do sistema prisional).[90][91][92]

Abolicionismo
Caixa de coleta da Sociedade Antiescravidão de Massachusetts, por volta de 1850

O abolicionismo (ou movimento antiescravidão) nos Estados Unidos foi o movimento que buscou acabar com a escravidão nos Estados Unidos imediatamente, ativo antes e durante a Guerra Civil Americana. Nas Américas e na Europa Ocidental, o abolicionismo era um movimento que buscava acabar com o tráfico de escravos no Atlântico e libertar escravos. No século XVII, os pensadores iluministas condenaram a escravidão, por motivos humanítários, enquanto os quakers ingleses e algumas denominações evangélicas condenaram a escravidão como sendo não cristã. Naquela época, a maioria dos escravos era africana, mas milhares de nativos americanos também eram escravizados. No século XVIII, seis milhões de africanos foram transportados para as Américas como escravos - pelo menos um terço deles em navios britânicos, para a América do Norte. A colônia da Geórgia originalmente proibia a escravidão em seu território e, a partir de então, a abolição fez parte da mensagem do Primeiro Grande Despertamento das décadas de 1730 e 1740 nas Treze Colônias.

Durante a Era do Iluminismo, pensadores racionalistas criticaram a escravidão por violar os direitos naturais das pessoas. Um membro do parlamento britânico, James Edward Oglethorpe, foi um dos primeiros a articular o caso do Iluminismo contra a escravidão. Oglethorpe, fundador da província da Geórgia, proibiu a escravidão por motivos humanísticos. Ele argumentou contra ela no Parlamento e acabou incentivando seus amigos Granville Sharp e Hannah More a perseguir vigorosamente a causa. Logo após sua morte em 1785, Sharp e More juntaram-se a William Wilberforce e outros na formação da Seita de Clapham. Embora os sentimentos antiescravidão tenham se espalhado no final do século XVIII, muitas colônias, igrejas e nações emergentes (principalmente no sul dos Estados Unidos) continuaram a usar e defender as tradições da escravidão. A proibição da escravidão na Geórgia foi suspensa em 1751.

Durante e imediatamente após a Revolução Americana, os estados do Norte, começando com Uma Lei para a Abolição Gradual da Escravidão (An Act for the Gradual Abolition of Slavery) da Pensilvânia em 1780, aprovaram legislação nas duas décadas seguintes abolindo a escravidão, às vezes por emancipação gradual. Massachusetts ratificou uma constituição que declarou todos os homens iguais; ações de liberdade desafiando a escravidão com base nesse princípio levaram ao fim da escravidão no estado. Em outros estados, como a Virgínia, declarações de direitos semelhantes foram interpretadas pelos tribunais como não aplicáveis a africanos ou afro-americanos. Quase todos os estados proibiram o comércio internacional de escravos durante a Revolução. Nas décadas seguintes, o movimento abolicionista cresceu nos estados do Norte, e o Congresso regulamentou a expansão da escravidão à medida que novos estados eram admitidos na União. O governo federal dos Estados Unidos criminalizou o comércio internacional de escravos em 1808 e tornou a escravidão inconstitucional em 1865 como resultado da Guerra Civil Americana, exceto como punição por crimes pelos quais a pessoa foi "devidamente condenada".

O historiador James M. McPherson define um abolicionista "como alguém que antes da Guerra Civil havia agitado pela abolição imediata, incondicional e total da escravidão nos Estados Unidos". Ele não inclui ativistas contra a escravidão, como Abraham Lincoln, presidente dos EUA durante a Guerra Civil ou o Partido Republicano, que pedia o fim gradual da escravidão.[93]

O abolicionismo nos Estados Unidos era uma expressão do moralismo,[94] e frequentemente tinha um componente religioso: a escravidão era incompatível com o cristianismo, de acordo com os muitos abolicionistas religiosos. Frequentemente operava em conjunto com outro esforço de reforma social, o movimento da temperança.[95]

Mercado de Escravos, edificado em 1691, em Lagos[96]

As primeiras incursões portuguesas (em cerca de 1334 ou 1335) em busca de escravos e saques deram-se nas Ilhas Canárias, já habitadas por um povo de origem berbere, os guanches, que resistiam ferozmente.[97][98][99]

Os portugueses, nas viagens que fizeram ao longo da costa na direção do sul de África, contataram também aí com uma rede árabe já estabelecida de comércio de escravos, o tráfico de escravos transariano para o Norte de África e o Médio Oriente muçulmano.[100] O primeiro lote de africanos escravizados transportados para Portugal foram os que a tripulação do navegador Antão Gonçalves capturou na costa de Arguim (hoje Mauritânia) em 1441. Quando, poucos anos depois, os primeiros Portugueses começaram a chegar à Guiné, contataram também com o tráfico negreiro aí existente. O comércio de escravos português cresceu continuamente, mais tarde em competição com holandeses, ingleses e franceses, vindo a ter o seu auge no século XVIII com o comércio dos africanos escravizados para o Brasil. No entanto, o corpo legislativo emanado das chancelarias régias portuguesas é abundante em diplomas destinados a reprimir a escravatura e a proteger os indígenas: provisões de D. João II, de 5 de Abril e 11 de Junho de 1492, e alvarás de 18 de Julho e 10 de Dezembro de 1493; a célebre lei de 20 de Março de 1570 sobre "a liberdade dos gentios das terras do Brasil, e mais Conquistas"; a provisão de 20 de Setembro de 1570, onde o rei D. Sebastião ordena que "Portugues algum nam possa resgatar nem catiuar Iapão; e sendo caso, que resgatem, ou catiuem alguns dos ditos Iapões, os que assim forem resgatados, ou catiuos, ficaram livres…". Os alvarás de 5 de junho de 1605, de 3 de julho de 1609, e o alvará com força de lei de 8 de maio de 1758, vão no mesmo sentido.[101] Porém, os dados existentes apontam para um enorme crescendo constante do tráfico de escravos português, que desde 1500 só diminuiria cerca do ano de 1850.[102]

No Maranhão, um grupo de aproximadamente 50 portugueses foram aprisionados por invasores holandeses, na ocasião de sua expulsão e posteriormente, vendidos como escravos para Barbados.[78]

Decorria o Reinado de D. José I quando, em 12 de Fevereiro de 1761, foi proibida pelo Marquês de Pombal a importação de escravos negros em Portugal/Metrópole e na Índia, não por razões humanitárias, mas principalmente porque eram mão de obra necessária no Brasil.[43][44] Ao mesmo tempo, estimulou-se o comércio de escravos negros ("as peças") para o Brasil, tendo sido fundadas, com o apoio e envolvimento direto do Marquês de Pombal, duas companhias - a Companhia do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba - cuja principal atividade era precisamente o tráfico de escravos, na maioria africanos, para terras brasileiras. Na lista de acionistas das duas companhias contavam-se, além do Marquês, muitos nobres e clérigos.[45] Apenas entre 1757 e 1777, foram importados um total de 25 365 escravos negros para o Pará e Maranhão, vindos dos portos do oeste africano.[46]

No século XIX, em 1836, o tráfico de escravos foi abolido em todo o Império,[103] embora continuasse. Com a lei de 25 de fevereiro de 1869[104] proclamou-se a abolição da escravatura em todo o Império Português, até ao termo definitivo em 1878.[105]

Com relação à historiografia sobre a escravatura em Portugal, podem ser definidos dois períodos. Primeiramente, do século XIX a meados do século XX, os historiadores tinham uma preocupação em combater a imagem negativa que recaía sobre Portugal, país iniciador da escravatura transatlântica. Uma segunda fase, iniciada nos anos 1960, já não demonstrava tal preocupação, focando em aspectos demográficos, económicos, sociais e culturais da escravatura portuguesa.[106]

Ver também

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Notas e referências

Notas

  1. Segundo Eunice Prudente, professora da Faculdade de Direito da USP: "Não há, nunca houve, nem haverá escravos. O ser humano, sob violência física ou simbólica, tem sido escravizado, mas não escravo. O escravo é um ser inerte convencido de sua inferioridade face ao opressor, subordinado em todas as esferas da vida. Isso, nenhum ser humano o é."[4]

Referências

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  3. Porto Editora – escravagismo no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-10-07 17:15:24]. Disponível em
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  14. Rodrigues, A. Coelho (1879). «Institutas do Imperador Justiniano: vertidas do latim para o portuguez com perto de cincoenta notas extrahidas do Corpus Juris e um appendice contendo a integra do texto e da traduccao das novellas 118 e 127.». Supremo Tribunal Federal brasileiro. Typographia Mercantil. pp. 13–14. Cópia arquivada em 5 de janeiro de 2024
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  29. O escritor franco-senegalês Tidiane N’Diaye denunciou, num livro recente, que a estes últimos e não só eram sujeitos a castração para lhes ser inibido o seu desejo sexual, próprio para a função que era lhes destinado, mas, principalmente para lhes ser retirada a capacidade progenitora. - Escravatura: uma perspectiva politicamente incorrecta, Francisco Henriques da Silva, Contra-cultura, 22 Mar 25
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Bibliografia

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Ligações externas

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