Barés
Povo Baré banha-se no rio | |
| População total | |
|---|---|
| 16.516 | |
| Regiões com população significativa | |
| 11.472Siasi/Sesai, 2014[1] | |
| 5.044XIV Censo Nacional de Poblacion y Viviendas, 2011 | |
| Línguas | |
| Nheengatu, língua baré e português | |
| Religiões | |
Os Barés são um povo indígena que vive no noroeste do estado brasileiro do Amazonas, abrangendo as Terras Indígenas Içana-Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II e Xié, com uma presença histórica e cultural que também se estende para além das fronteiras do Brasil, e alcança o território venezuelano mais ao norte. A história do povo Baré é fortemente marcada por uma contínua e dinâmica reafirmação de sua autonomia e identidade frente às perseguições externas. Ao longo das gerações, o povo desenvolveu estratégias de manejo e mobilidade pelo território do Rio Negro. Isso garantiu a preservação de suas estruturas sociais, de suas tradições, seu folclore e a guarda de sua integridade físico-cultural até os dias atuais.
Hoje, a reprodução física e cultural das comunidades ao redor dos Rios Negros fundamenta-se na exploração sustentável da floresta e dos rios, garantindo sua condição alimentar por meio da agricultura de coivara. Essa técnica da agricultura itinerante é praticada desde os ancestrais do povo tukano e da sociedade indígena pretérita do alto Rio Negro a utilizam para não degradar o solo e a floresta. "É um sistema de cultivo que consiste em mudança de local periodicamente juntamente com as plantações (cultura) como a maniva para outra área para evitar a degradação total do solo e a diminuição da produtividade da planta." [2] (com destaque para o cultivo da mandioca), também da caça de animais e da pesca. A coleta e o beneficiamento da fibra de piaçava constituem uma importante dimensão de sua autonomia socioeconômica, articulando as práticas tradicionais com a dinâmica dos mercados regionais.
O contato dos Werekena com frentes não indígenas intensificou-se a partir do início do século XVIII, período em que surgiram as primeiras menções documentais a esse povo. Registros de missionários jesuítas da década de 1750 detalham que o grupo vivia as margens do rio Xié, possuía idioma próprio e sofria pressões coloniais para o deslocamento forçado em direção aos cursos d'água principais com o objetivo de promover o aldeamento e a conversão religiosa. Relatos cronísticos da segunda metade daquele século apontam para a existência de diversas aldeias na bacia dos rios Guainía, Atabapo e nos afluentes do Cassiquiare, região que delimita a ocupação histórica do grupo na área fronteiriça. Essas mesmas fontes indicam que a política de migração compulsória implementada por colonizadores resultou no reassentamento de famílias inteiras em pontos estratégicos na confluência com o rio Orinoco.
O Mito de Mira-Bóia e Typa e a Origem do Povo Baré
[editar | editar código]Nas entranhas do Alto Rio Negro, a origem do povo Baré entrelaça-se com uma narrativa de amor, fuga e resistência que desafia o tempo. Segundo a tradição oral, o início dessa história remonta ao encontro de duas realidades distintas na foz do rio Negro. Um grande navio, transportando casais, subia o curso das águas, trazendo em seu exterior um homem solitário que havia sido rejeitado por não possuir um par. Ao avistar na margem um grupo de Icamiabas, as lendárias mulheres guerreiras que viviam de forma independente e mantinham o costume de aceitar apenas mulheres em sua sociedade, o homem lançou-se ao rio. Ele foi acolhido pelas guerreiras que, ao perceberem suas características singulares, decidiram poupar sua vida temporariamente, batizando-o de Mira-Bóia, que significa "gente cobra".
O destino de Mira-Bóia seria o mesmo de outros homens capturados: a morte após o período reprodutivo. As guerreiras organizaram uma celebração de oito dias na lua cheia e estipularam que ele passaria três dias com cada integrante do grupo durante seus períodos férteis. Ao final do ciclo, Mira-Bóia e todos os filhos homens nascidos dessas uniões seriam sacrificados. No entanto, o curso da história mudou quando ele chegou à última moça do grupo, a mais jovem e querida, chamada Typa (cujo nome significa "rouxinol").
Typa e Mira-Bóia apaixonaram-se profundamente. Diante da ameaça iminente de morte, o casal planejou uma fuga audaciosa. Aproveitando o momento em que as guerreiras saíram para pescar e coletar frutas em preparação para o sacrifício, os dois fugiram para um lugar distante, estabelecendo-se em uma região marcada por uma imponente beleza natural e por uma sucessão de quedas d'água, localidade que hoje corresponde ao município de São Gabriel da Cachoeira.
Dessa união nasceu uma descendência numerosa, com uma predominância de filhos homens. Para solucionar a escassez de consortes femininas e expandir a comunidade, os filhos de Typa e Mira-Bóia retornaram ao território original para buscar as mulheres guerreiras como esposas. A partir dessa junção, consolidou-se um povo forte e numeroso, conhecido originalmente como Baré-Mira. Desse tronco ancestral surgiram guerreiros icônicos como Curucuí e Buburi, que marcaram a paisagem e a memória cosmológica da região, eternizando os Baré como os legítimos "Senhores do Rio".
Demarcação territorial e estatísticas habitacional
[editar | editar código]A estruturação territorial do povo Baré está consolidada na Terra Indígena Alto Rio Negro, um território de vasta extensão que foi oficialmente homologado no ano de 1996. Esta área configura-se como a quarta maior terra indígena reconhecida no Brasil, abrangendo aproximadamente oito milhões de hectares compostos por rios e florestas. A relevância geográfica e habitacional desse território para a etnia é evidenciada pelo fato de que cerca de 92% de sua extensão total encontra-se sob a jurisdição do município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. O domínio histórico dos Baré era ainda mais abrangente, ocupando áreas que se estendiam desde Manaus até as cachoeiras de Curucuí e Buburí, local onde a sede municipal de São Gabriel está situada atualmente[3] . Nesse contexto, marcos como o Morro da Fortaleza são fundamentais para a memória territorial, pois serviam como pontos ancestrais de observação estratégica para o controle de quem transitava pelo trecho mais estreito do Rio Negro.
Em termos de estatísticas habitacionais e dinâmicas populacionais, o povo Baré apresenta um quadro de expressiva recuperação demográfica.[4] Embora o censo brasileiro tenha chegado a considerar a etnia como extinta na década de 1990, os registros atuais demonstram que eles figuram hoje entre os povos indígenas mais numerosos do país. Dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro, os Baré convivem com outros 21 povos originários, integrando uma rede de mais de 30 grupos etnolinguísticos que compartilham o território. A distribuição habitacional do grupo também possui um caráter transfronteiriço, com populações estabelecidas na Colômbia e na Venezuela devido a deslocamentos forçados por processos históricos de colonização. No cotidiano das comunidades, a organização habitacional é definida por laços de corresidência e comensalidade, onde a identificação coletiva é fortalecida pela habitação compartilhada e pela gestão territorial conjunta com as organizações indígenas locais[5].
Organização política e Ativismo
[editar | editar código]O protagonismo político e adisputa pela memória ocupam papel central na articulação contemporânea do grupo no movimento indígena. Entre as lideranças de destaque está Nara Baré. Ela luta pelos direitos dos povos indígenas e pelos direitos das mulheres. Nara Ficou conhecida nacionalmente e internacionalmente por se tornar a primeira mulher a coordenar a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a maior organização indígena do Brasil, criada há 37 anos.[6] A organização atua na defesa dos direitos dos povos originários e dos territórios indígenas e foi fundada em 1989. Francinara Soares Baré, de 49 anos foi eleita em 30 de agosto de 2017 na aldeia do Alto Rio Guamá, no Pará, e reuniu cerca de 600 lideranças indígenas de toda a Amazônia brasileira. Esteve à frente da organização durante um mandato de cinco anos, encerrando formalmente a sua gestão em 2022.[7]
Nara Baré é natural de São Gabriel da Cachoeira, município do Amazonas situado na região transfronteiriça do Alto Rio Negro. A localidade destaca-se por sua composição demográfica predominantemente indígena, abrigando mais de vinte etnias diferentes.
No campo acadêmico e das ações afirmativas, o grupo conta com a trajetória de Michael Baré, pioneiro ao ingressar no ensino superior fluminense por meio das cotas étnico-raciais. Natural de Manaus, ele se estabeleceu no Rio de Janeiro no início dos anos 2000, tornando-se o primeiro estudante indígena cotista a se graduar em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sua trajetória acadêmica e profissional engloba a atuação na educação básica, no ativismo social e na pesquisa de pós-graduação em História Política.
Turismo em Território da Nova Esperança
[editar | editar código]Uma análise desenvolvida pela estudante de mestrado Ana Rosa Guimarães Basto Proença mostra o turismo de base comunitária em uma comunidade indigena da Amazônia brasileira, formada predominantemente por membros do povo Baré.[8] O estudo investiga a relação entre a atividade turística, o desenvolvimento local e as transformações socioculturais decorrentes da interação entre visitantes e a população indígena.
O turismo representa uma importante alternativa econômica para a comunidade, contribuindo para a geração de renda por meio da comercialização de artesanato, da oferta de atividades culturais e da valorização dos conhecimentos tradicionais. Entre os povos Baré, o turismo também é apresentado como uma ferramenta de fortalecimento da identidade cultural e da divulgação de aspectos históricos, sociais e ambientais da região amazônica.[9]
A gestão comunitária das atividades turísticas favorece a participação dos moradores nos processos de decisão e na preservação do patrimônio cultural. Entretanto, o crescimento do turismo pode gerar mudanças nos costumes locais e exige planejamento para garantir o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, conservação ambiental e manutenção das tradições indígenas.[10]
Língua e População
[editar | editar código]Os povos baré e werekena falavam originalmente a língua baré e a língua warekena, ambas línguas arawakan, mas hoje falam a língua nheengatu, uma língua franca difundida pelos jesuítas no período colonial.[11] Algumas comunidades do Alto Xié ainda falam Warekena. De acordo com o Siasi / Sesai, em 2014 havia 11.472 habitantes do povo Baré no Amazonas, Brasil. O censo nacional de 2011 da Venezuela relatou 5.044 pessoas Baré.[11]
História de Contato
[editar | editar código]Os primeiros contatos dos barés e werekenas com colonos europeus datam provavelmente do início do século XVIII. O jesuíta Ignácio Szentmatonyi escreveu em 1753 que os "verikenas" habitavam o rio "Issié" (Xié) e falavam a sua própria língua. Escritores posteriores disseram que eles adaptaram os nomes hebraicos, usaram cordas com nós para comunicar mensagens, fizeram grandes orifícios nos lóbulos das orelhas e eram canibais. No século XIX, houve o contato com comerciantes de produtos extrativos, autoridades, programas governamentais de "civilização e catequese" e, assim como, construções de missões religiosas.[12] A partir dos oitoscentos até a década de 1960, boa parte dos indígenas desta região, incluindo os barés, foram envolvidos na exploração da borracha, sorva, salsaparilha, puxuri, balata, piaçava, ucuquirana, peles de felinos e cacau sendo submetidos a trabalhos compulsórios, migrações forçadas para zonas de produção extrativista em favor dos comerciantes.[12] Esse contato ocorreu com extrema violência, com casos de trabalho tipicamente coloniais e análogos à escravidão, como a escravidão por dívida.[12] A violência perpetrada contra os indígenas foi propagada tanto do setor privado quanto com as autoridades do Estado. No Serviço de Proteção aos Índios (SPI), fundado em 1910, diversas autoridades beneficiavam-se das vantagens do cargo em relação à exploração extrativa e do trabalho indígena para benefício privado, ao invés de trabalharem pelos interesses dos povos origonários.[12] Para os barés e werekenas haveria pouca diferença entre as autoridades e os comerciantes. Alguns foram forçados a migrar e trabalhar em novas áreas pelos mercadores, e alguns fugiram dos comerciantes e se mudaram várias vezes para evitar o contato.[11]
Referências
[editar código]- ↑ Instituto Socioambiental. «Quadro Geral dos Povos». Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil. Consultado em 17 de setembro de 2017
- ↑ Silva, Matos, Jurandir, Gláucio (2023). «COIVARA: UMA PRÁTICA SECULAR NO MANEJO AGRÍCOLA INDÍGENA DAETNIA TUKANO» (PDF). VII EPPAC. Consultado em 31 de maio de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2025
- ↑ 1. VASCONCELOS NETO, Agenor Cavalcanti de; DELGADO, Jane Araújo. Um ensaio sobre a origem de São Gabriel da Cachoeira: a relação entre as Icamiabas e o povo Baré. Fragmentos de Cultura, 2024.
- ↑ 1. VASCONCELOS NETO, Agenor Cavalcanti de; DELGADO, Jane Araújo. Um ensaio sobre a origem de São Gabriel da Cachoeira: a relação entre as Icamiabas e o povo Baré. Fragmentos de Cultura, 2024.
- ↑ 2. FIGUEIREDO, Paulo Roberto Maia. Vamos laçar nossos xerimbabos: a estética da captura dos instrumentos sagrados de Jurupari dos Baré do Alto Rio Negro (AM). Teoria & Sociedade, 2016.
- ↑ «Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB. «Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)». Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ Real, amazônia (2013). ««"Ser indígena hoje é sinônimo de resistência", diz Nara Baré, a primeira mulher a assumir a Coiab - Amazônia Real». Consultado em 31 de maio de 2026. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2025
- ↑ Proença, Ana Rosa Guimarães Bastos; Netto, Alexandre Panosso (24 de fevereiro de 2022). «Turismo em territórios indígenas: desenvolvimento e impacto sociocultural na Comunidade Indígena Nova Esperança "Pisasú Sarusawa" (Rio Cuieiras -Amazonas)». Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. 16: 2408–2408. ISSN 1982-6125. doi:10.7784/rbtur.v16.2408
- ↑ Proença, Ana Rosa Guimarães Bastos; Netto, Alexandre Panosso (24 de fevereiro de 2022). «Turismo em territórios indígenas: desenvolvimento e impacto sociocultural na Comunidade Indígena Nova Esperança "Pisasú Sarusawa" (Rio Cuieiras -Amazonas)». Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. 16: 2408–2408. ISSN 1982-6125. doi:10.7784/rbtur.v16.2408
- ↑ Proença, Ana Rosa Guimarães Bastos; Netto, Alexandre Panosso (24 de fevereiro de 2022). «Turismo em territórios indígenas: desenvolvimento e impacto sociocultural na Comunidade Indígena Nova Esperança "Pisasú Sarusawa" (Rio Cuieiras -Amazonas)». Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. 16: 2408–2408. ISSN 1982-6125. doi:10.7784/rbtur.v16.2408
- 1 2 3 «Baré - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 28 de maio de 2021
- 1 2 3 4 MEIRA, Márcio (1996). «O Tempo dos patrões: extrativismo, comerciantes e história indígena no Noroeste da Amazônia». Lusotopie (nº3): 173-187 – via Persée
10. https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/11156/2/DISS_JaneDelgado_PPGSCA 48-77