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Lavrado

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Lavrado é um termo utilizado em Roraima para definir a região de vegetação aberta (do tipo savana-estépica, ao norte, e savana, mais ao sul) situada na porção nordeste deste estado da Amazônia brasileira. O nome é utilizado para diferenciar essas áreas dos demais cerrados brasileiros, já que as savanas de Roraima apresentam uma grande abundância de Cyperaceae e baixa diversidade florística.[1]

Anteriormente, acreditava-se que as regiões de lavrado seriam disjunções do Cerrado, mas estudos recentes de biogeografia demonstram que, o que era considerado como cerrado amazônico deve ser tratado como savana amazônica, já que floristicamente está mais relacionado aos lavrados do norte da Amazônia em Roraima do que ao típico Cerrado.[2]

Passagem do fogo em área de lavrado, Roraima
Visão do território brasileiro a partir do monte Roraima, em Santa Elena de Uairén, Venezuela.
Trilha no lavrado roraimense

Localização

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O lavrado trata-se de um ecossistema único, sem correspondente em outra parte do Brasil, com elevada importância para a conservação da biodiversidade e de outros aspectos ambientais amazônicos, sendo uma paisagem que faz parte do grande sistema de áreas abertas que se assenta entre Brasil, Guiana e Venezuela (68 145 km²). O lado brasileiro, totalmente restrito a Roraima, detém 62,6% (42 706 km²) deste complexo florístico.[nota 1]

Abrange 19,30% do Estado de Roraima, uma área considerável em relação as diversas peculiaridades que se contrastam notoriamente com a floresta densa, que predomina na Amazônia.[4]

Dentro da divisão de biomas e ecorregiões que o Ministério do Meio Ambiente do Brasil adota, esta grande paisagem é definida como a ecorregião das «Savanas das Guianas», inserida no bioma amazônia.

Clima e Relevo

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A região é caracterizada pelo clima Awi (tropical úmido sem estação fria), de acordo com o sistema de classificação de Köppen. Segundo os dados obtidos pelo Instituto Nacional de Metereologia (INMET) na cidade de Boa Vista (capital de Roraima) para o período de 1910-2021, a precipitação média anual é de 1662 ± 405 mm, e a média mensal da umidade relativa do ar varia de 66-82%. Os meses de seca estão entre dezembro e março, enquanto os meses de chuva entre maio e agosto.[5] A temperatura média anual é de 24ºC, apresentando variações anuais entre 26 e 29ºC. [1]

O relevo é predominantemente aplainado, altitude entre 80 e 160m, onde pode-se encontrar diversos afloramentos rochosos, constituindo "inselbergue" menores que podem ter altitudes de 400 a 500m. As savanas de Roraima situam-se sobre vários tipos de solos, nos quais podem ser encontrados Solos Litólicos Distróficos ao norte, Solos de Laterita Hidromórfica Distrófica e Planassolo Eutrófico próximos a rios. Na área central é possível encontrar Latossolos Amarelo distrófico. E ao leste e sul das savanas encontram-se Latossolo Vermelho Amarelo.[1]

Flora e Fauna

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A flora local e a diversidade de ecossistemas naturais do lavrado (savanas) em Roraima vem sendo explicada ao longo do tempo como o resultado de interações edafoclimáticas ocorridas através dos últimos períodos glaciais e interglaciais, os quais formaram veredas de buritizais, lagos, florestas ribeirinhas, ilhas de mata e florestas de altitude. A família botânica Fabaceae é a mais diversa em número de espécies de árvores e arbustos no Lavrado de Roraima, enquanto Poaceae e Cyperaceae se destacam no elevado número de espécies no estrato herbáceo. [5] Outras espécies que podem ser encontradas, de acordo com estudos de diversidade vegetal no lavrado, são: caimbé (Curatella americana L.), muricis (Byrsonima spp.), copaíba (Copaifera pubiflora Benth.), mari-mari (Cassia moschata Kunth), buriti (Mauritia flexuosa), paricarana (Bowdichia virgilioides Kunth), Sucuba (Himatanthus articulatus) e jenipapo (Genipa americana L.).[6]

A fauna do Lavrado é extremamente diversa e adaptada às savanas amazônicas do norte do Brasil, reunindo espécies associadas tanto às áreas abertas quanto às matas e ambientes alagáveis. Destacam-se aves campestres e migratórias, anfíbios dependentes das chuvas sazonais, répteis típicos de savana, mamíferos como tamanduás, tatus e felinos, além de peixes ligados a lagoas temporárias e igarapés. Há também grande diversidade de artrópodes, fundamentais para a polinização e a ciclagem de nutrientes. Essa fauna mantém conexões ecológicas com as savanas da Venezuela e Guiana, mas enfrenta pressões crescentes da agropecuária, das queimadas e da fragmentação dos habitats, evidenciando a necessidade de conservação desse ecossistema.[5] É nesta região que vive o cavalo lavradeiro, uma espécie equina ameaçada de extinção e que habita a área há mais de 200 anos.

Uso das plantas

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No uso madeireiro, o recurso é proveniente de ambientes florestais inseridos no ecossistema do lavrado, como Mata Ciliar, Buritizal e Ilha de Mata. Na Mata Ciliar, as espécies mais utilizadas são copaíba (Copaifera pubiflora Benth.), pau-rainha (Centrolobium paraense Tul.) e jenipapo (Genipa americana L.), principalmente para construção. No Buritizal, as folhas (palhas) do buriti (M. flexuosa) são utilizadas para a cobertura de abrigos. Nas Ilhas de Mata, o angico (Anadenanthera peregrina (L.) Speg.) é utilizado como estaca de casa, cerca e madeiras do ar, além de ser usado como lenha.[5]

No uso alimentício, as principais espécies para alimentação humana são caju (Anacardium occidentale L.), taperebá (Spondias mombin L.), inajá (Atallea maripa (Aubl.) Mart.), buriti (Mauritia flexuosa), jatobá (Hymenaea courbaril L.), mirixi-miúdo e mirixi-graúdo (Byrsonima crassifolia e B. coccolobifolia) e jenipapo (Genipa americana). Na alimentação animal, as espécies são jauari (Astrocaryum sp.), buriti, mari-mari (Cassia moschata), copaíba (Copaifera pubiflora), ingarana (Inga sp.), piritó (Swartzia sp.), goiabinha (Myrcia sp.), jenipapo e maria-preta (Vitex schomburgkiana).[5]

No uso medicinal, as principais espécies são sucuba (Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel), caimbé (Curatella americana), angico (Anadenanthera peregrina), manga-braba (Andira sp.), copaíba (Copaifera spp.), copaibinha (Cynometra bauhiniifolia Benth.), paricarana (Bowdichia virgilioides Kunth), mororó (Bauhinia sp.), darora (Leptolobium nitens Vogel), vassourinha (Hydrochorea corymbosa (Rich.) Barneby & J.W.Grimes), lacre (Vismia cayennensis Aubl.), mirixis miúdo e graúdo (Byrsonima crassifolia e B. coccolobifolia), jenipapo (Genipa americana), douradão (Palicourea rigida Kunth), congonha (Roupala montana) e salvia ou salva-do-campo (Lippia origanoides Kunth). [5]

Para o uso artesanal, predominam as palmeiras, como a jacitara (Desmoncus sp.), e o buriti, utilizadas na confecção de brinquedos a partir do pecíolo (caranã) e para produção de vestuário para danças típicas. Sementes e frutos também são usados na confecção dos artefatos, é o caso de espécies como tento (Ormosia sp.), mari-mari (Cassia moschata), darora (Leptolobium nitens), arapari (Macrolobium acaciifolium Benth.), jenipapurana (Gustavia augusta L.), jatobá (Hymenaea courbaril L.) e ucuubas (Virola molissima e V. surinamensis). Na pintura corporal, destaca-se o jenipapo (Genipapo americana).[5]

Terras Indígenas

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O Lavrado encontra-se atualmente em grande parte protegido devido às grandes extensões de terras indígenas, as quais ocupam a maior parte da sua área (a exemplo, reservas de São Marcos e Raposa-Serra do Sol). A despeito disso, ainda há uma crescente presença de agricultura mecanizada de grãos na sua porção sul, nos municípios de Bonfim, Boa Vista, Cantá e Alto Alegre.

  1. Outros termos utilizados na literatura são «campos de Roraima» ou «campos do alto rio Branco». Na Guiana esse tipo de vegetação é denominada Rupununi Savannah, em virtude do de se situar na bacia do rio homônimo, enquanto que na venezuela recebe a denominação de Gran Sabana.[3]

Referências

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  1. 1 2 3 Miranda, Izildinha Souza; Absy, Maria Lúcia (2000). «Fisionomia das savanas de Roraima, Brasil». Acta Amazonica. 30: 423–423. ISSN 0044-5967. doi:10.1590/1809-43922000303440. Cópia arquivada em 26 de março de 2025
  2. Devecchi, Marcelo F; Lovo, Juliana; Moro, Marcelo F; Andrino, Caroline O; Barbosa-Silva, Rafael G; Viana, Pedro L; Giulietti, Ana Maria; Antar, Guilherme; Watanabe, Maurício T C; Zappi, Daniela C (23 de julho de 2020). «Beyond forests in the Amazon: biogeography and floristic relationships of the Amazonian savannas». Botanical Journal of the Linnean Society (em inglês). 193 (4): 478–503. ISSN 0024-4074. doi:10.1093/botlinnean/boaa025. Cópia arquivada em 24 de abril de 2025
  3. Editores da Britannica (2018). «Rupununi Savanna region, South America». Encyclopaedia Britannica. Consultado em 4 de abril de 2022
  4. Morais, Roseane Pereira; Carvalho, Thiago Morato de (16 de março de 2015). «ASPECTOS DINÂMICOS DA PAISAGEM DO LAVRADO, NORDESTE DE RORAIMA». Geosciences = Geociências. 34 (1): 55–68. ISSN 1980-900X
  5. 1 2 3 4 5 6 7 Barbosa, Reinaldo (2025). Lavrado de Roraima. Caracterização, Biodiversidade, Populações Humanas e Conservação na Maior Savana do Norte da Amazônia Brasileira. Manaus, Amazonas: Editora INPA
  6. Barbosa, Reinaldo (2005). Savanas de Roraima: Etnoecologia, Biodiversidade e Potencialidades Agrossilvipastoris. Boa Vista: FEMACT-RR

Ver também

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Bibliografia

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  • Barbosa, R. I. 2010. Expedições Naturalistas e Exploratórias na Construção Histórica do Vale do Rio Branco. Mens Agitat: História da Ciência, v. 5, p. 157-164. link.
  • Barbosa, R.I.; Campos, C. 2011. Detection and geographical distribution of clearing áreas in the savannas (‘lavrado’) of Roraima using Google Earth web tool. Journal of Geography and Regional Planning, 4(3): 122-136. Disponível em http://academicjournals.org/article/article1381833635_Barbosa%20and%20Campos.pdf.
  • Campos, C.; Pinto, F.; Barbosa, R.I. 2008. O «Lavrado» de Roraima: Importância Biológica, Desenvolvimento e Conservação na maior Savana do Bioma Amazônia. Diagnóstico. Boa Vista-Roraima, INPA/Núcleo de Pesquisas de Roraima. 8p. (Documento encaminhado ao Ministério do Meio Ambiente através do Ofício INPA/Roraima sn. de 17.06.2008). Disponível em http://agroeco.inpa.gov.br/reinaldo/RIBarbosa_ProdCient_Usu_Visitantes/2008Diagnostico_LAVRADO_MMA.pdf.
  • Miranda, Izildinha Souza; Absy, Maria Lúcia. 2000. Fisionomia das savanas de Roraima, Brasil. Acta Amaz., Manaus, v. 30, n. 3, p. 423-440. link.
  • Takeuchi, M. (1960). A estrutura da vegetação na Amazônia. II - As savanas do norte da Amazônia. Bol. Mus. Paraense E. Goeldi, Bot., 7: 1-13.
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